A dúvida e o sagrado

Certa feita, li uma afirmação em um texto do escritor Gabriel Chalita, algo que me intrigou bastante. Não foi com essas palavras, mas a frase sugeria o sequinte: os escritores deveriam abandonar toda e qualquer certeza.

Realmente, há momentos na vida em que as certezas desaparecem. Aquilo que parecia firme começa a vacilar, as respostas que procurávamos não chegam e o futuro se apresenta diante de nós envolto em um ensurdecedor silêncio. É justamente nesses momentos que descobrimos uma dimensão profunda da nossa existência: é na dúvida que, muitas vezes, nos abraçamos ao sagrado.

Enquanto tudo vai bem, é fácil acreditar que temos o controle da própria vida. Fazemos planos, estabelecemos caminhos, confiamos em nossas forças e acreditamos conhecer o hoje e o amanhã. Mas basta que uma doença, uma perda, uma separação, uma decepção ou, simplesmente, que uma circunstância inesperada atravesse o nosso caminho para percebermos como são frágeis as nossas certezas.

E então perguntamos: por quê?

Por que isso aconteceu? Por que comigo? O que haverá depois? Será que existe um sentido para aquilo que estamos vivendo?

Nem sempre encontramos respostas.

É, justamente, na incerteza que muitas vezes a fé começa a exercer sua verdadeira função. A fé não é a ausência da dúvida. Ao contrário, como sugerido acima, muitas vezes ela nasce no território da incerteza. Crer não significa compreender tudo; significa continuar caminhando mesmo quando não conseguimos enxergar claramente o caminho.

É na dúvida que levantamos os olhos para o alto.

É na angústia que descobrimos a força da oração. É diante do inexplicável que aprendemos a confiar. Quando nossas próprias certezas já não conseguem nos sustentar, procuramos algo que esteja além de nós mesmos.

O sagrado não elimina, necessariamente, nossas perguntas. Ele nos ensina a conviver e a aprender com elas.

Uma das maiores ilusões humanas é imaginar que precisamos compreender tudo para acreditar. Há coisas que jamais compreenderemos inteiramente: a alegria, o mistério da vida, o sofrimento, a morte, o tempo, o destino daqueles que amamos e, sobretudo, o silêncio de Deus diante de determinadas situações.

Mas o silêncio de Deus não significa necessariamente, ausência.

Há silêncios que também são presença.

Como uma criança que segura a mão do pai sem conhecer o caminho, também nós podemos caminhar pela vida confiando em uma mão que não vemos, mas na qual depositamos nossa esperança.

A dúvida, portanto, não precisa ser inimiga da fé. Pode ser uma porta entreaberta em direção ao Divino. Ela nos tira da arrogância das certezas e nos coloca diante do mistério da dúvida. Ela nos recorda que somos limitados, que não possuímos todas as respostas e que a vida é muito maior do que aquilo que conseguimos explicar.

É por isso que, muitas vezes, nos momentos mais difíceis, nossas orações se tornem tão simples e já não pedimos grandes coisas. Apenas dizemos: “Senhor, ajuda-nos a continuar.” Essa é uma das mais formas mais sinceras de rezar.

Porque, quando já não sabemos para onde ir, resta-nos tão somente confiar. Quando não compreendemos, resta-nos esperar. Quando a noite parece longa demais, resta-nos acreditar que a aurora, inevitavelmente, raiará.

É na dúvida que, muitas vezes, nos abraçamos ao sagrado. Não porque tenhamos deixado de perguntar, mas porque aprendemos que algumas respostas não estão nas palavras, e sim na confiança que desaprendemos a confiar.

Que a fé seja exatamente, isso: continuar caminhando, mesmo sem compreender completamente o caminho, acreditando que, além daquilo que os nossos olhos não conseguem ver, existe o Deus que nunca nos abandona.

Salvador-BA, 16 de agosto de 2026

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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