Vivemos em uma época em que se fala muito em direitos. Direito à saúde, à educação, à liberdade, à segurança, ao trabalho, à dignidade, à defesa pessoal e patrimonial… E é justo que assim seja. Uma sociedade, verdadeiramente, democrática precisa reconhecer e proteger os direitos de seus cidadãos.
Mas existe uma palavra que, muitas vezes, esquecemos: deveres.
Parece que nos acostumamos a exigir direitos como se eles fossem uma espécie de crédito inesgotável, algo que o Estado, a sociedade e os outros têm obrigação de nos entregar. Entretanto, esquecemos que, antes de cobrar aquilo que nos é devido, precisamos perguntar a nós mesmos: quais são os nossos deveres?
Deveres e Direitos são duas faces da mesma moeda. Não existe convivência social possível quando todos querem receber e poucos estão dispostos a contribuir.
Tenho direito a uma cidade limpa, mas também tenho o dever de cumprir os horários de coleta e de não jogar lixo nas ruas. Tenho direito à segurança, mas também devo respeitar os códigos de conduta e as leis. Tenho direito à liberdade de expressão, mas tenho o dever de não difamar e de respeitar a liberdade do outro. Tenho direito a ser tratado com dignidade, mas também preciso tratar, dignamente, àqueles que cruzam o meu caminho.
É nesse ponto que a vida em sociedade se torna mais exigente. Porque reivindicar é fácil. Difícil é assumir responsabilidades.
Não devemos aceitar que a palavra dever tenha perdido espaço no nosso vocabulário quotidiano. Ela nos lembra de limites, obrigações, compromissos e responsabilidades. Já a palavra “direito” parece muito mais agradável aos ouvidos.
Contudo, uma sociedade não se sustenta apenas sobre aquilo que cada indivíduo pode exigir. Ela se constrói, sobretudo, sobre aquilo que cada um está disposto a fazer.
O pai tem o dever de educar os filhos. O filho tem o dever de respeitar os pais. O professor tem o dever de ensinar. O aluno, de aprender e se dedicar. O governante tem o dever de servir ao interesse público. O cidadão, de participar, fiscalizar e cumprir as leis.
Vale salientar que num condomínio, ou na sociedade, é melhor raciocinar que o indivíduo tem mais deveres que direitos. Isso não significa dizer que os deveres eliminam ou diminuem os direitos. Ao contrário. É, justamente, o cumprimento dos deveres que se criam as condições para que os direitos de todos sejam respeitados.
Quando cada um pensa apenas no próprio direito, a sociedade transforma-se em uma arena de reivindicações. Quando cada um compreende também os seus deveres, começa a nascer uma verdadeira comunidade.
Há uma diferença profunda entre perguntar “o que eu tenho direito de receber?” e perguntar “o que eu posso fazer para que todos tenham aquilo a que têm direito?”
A primeira pergunta revela uma postura individualista. A segunda demonstra cidadania.
É urgente admitir que precisamos resgatar uma antiga lição que parece simples, mas que nunca deixou de ser atual e verdadeira: antes de exigir do mundo, devemos perguntar o que estamos oferecendo a ele.
Os direitos nos protegem. Os deveres nos responsabilizam.
E uma sociedade madura precisa das duas coisas.
Por isso que é tão urgente e necessário recolocar os deveres no lugar de onde nunca deveriam ter saído: antes dos direitos.
Não porque nossos direitos sejam menos importantes, mas porque ninguém constrói uma sociedade justa apenas dizendo “eu tenho direito”. É preciso também ter a coragem de dizer:Eu tenho um dever.
É, justamente, quando cumprimos o nosso dever que ajudamos a garantir o nosso e o direito do outro.
Salvador-BA, 7 de agosto de 2026
José Joaquim de Oliveira
Deveres e Direitos
José Joaquim de Oliveira
Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →
Discover more from Crônicas de José Joaquim
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
Leave a Reply