Não sei se já são os sinais dos meus quase 76 anos, mas há dias em que acordar já parece uma vitória.
Quem nunca enfrentou uma doença prolongada, talvez não compreenda o que significa conviver com um corpo que já não responde como antes. A Covid chegou, vieram as vacinas, o tempo passou, os exames deram negativos, mas ficaram as marcas invisíveis que insistem em barrar o meu pleno retorno às minhas caminhadas pelas madrugadas da praia de Ipitanga.
A fadiga chega sem pedir licença. Uma pequena caminhada exige o esforço que antes seria reservado a uma longa viagem. Subir uma escada transforma-se em desafio. A memória falha em detalhes simples, a concentração vacila e o sono, muitas vezes, deixa de ser reparador.
É uma luta silenciosa contra um inimigo que não consigo identificar.
Para quem olha de fora, a aparência pode ser de absoluta normalidade. Mas, por dentro, trava-se uma batalha diária entre a vontade de viver, plenamente, e as limitações que surgiram sem aviso.
Nesses momentos, aprendemos a valorizar aquilo que antes parecia insignificante: respirar sem dificuldade, caminhar sem cansaço, dormir uma noite inteira, acordar disposto.
Descobrimos que a saúde não é apenas ausência de doença; é a liberdade de viver sem que os próprios joelhos imponham barreiras a cada passo.
Os anos também ensinam a desacelerar. Obriga-nos a reconhecer que não somos invencíveis. Faz-nos compreender que a fragilidade faz parte da condição humana e que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria.
Tenho a humildade de aprender novas lições, mas a maior delas seja o despertar para entender que nunca saberemos quais batalhas silenciosas o outro enfrenta. Um sorriso pode esconder muita dor. Um silêncio pode revelar exaustão. Uma ausência pode ser consequência de um corpo que ainda tenta reencontrar o equilíbrio.
Aqueles que carregam as sequelas da Covid e seus tratamentos vivem, muitas vezes, entre pequenas vitórias e inevitáveis frustrações. Celebram o dia em que conseguem fazer o que, antes da doença, jamais imaginariam precisar comemorar.
A vida passa a ser construída em fragmentos: um dia bom, outro nem tanto; um passo adiante, dois de espera; uma esperança renovada a cada amanhecer.
Quem sabe, seja justamente nesses fragmentos que se revele a verdadeira força humana: a capacidade de continuar, mesmo quando o caminhar se torna mais lento; de conservar a esperança, mesmo diante das incertezas; e de agradecer por cada pequena conquista que a saúde, um dia recuperada, volte a permitir.
Salvador-BA, 6 de agosto de 2026
José Joaquim de Oliveira
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