O dia acorda tímido, inaugurando um clarão rosa que só o litoral da Bahia sabe apresentar. O sol ainda não havia nascido, mas Seu Antônio Raquel já estava acordado, pedindo um café pequeno antes do café matinal, a ser tomado na varanda de minha casa, na poltrona virada para o nascente, bem ao gosto dele. Seu olhar ancorado no clarão da aurora, adentra um mundo de lembranças e histórias, algumas delas, completamente, desconhecidas por mim.
Cem anos não são apenas um número; são um grande arquivo de vida, cada página repleta de casos, alvoradas, noites, dores e tempestades que insistem em aflorar como se fossem experiências recentes.
Ele é o próprio sertão vivo, do sítio Pedra Pintada, do município de Esperança-Pb onde nasceu; das cascaveis escondidas embaixo de cada pedra avulsa, das juritis, dos xique-xiques e do cachorro Diamante, o seu amigo fiel que lhe ajudava a conduzir as poucas vacas de volta ao curral ao lado da modesta casa de taipa. Todas elas tinham nomes e hoje, ele levanta os braços a apontar reses que teimam em continuar vivas no imaginário dele. Os braços fortes que não temiam o futuro, hoje carregam saudade dos tempos do interior paraibano — terra de aboios, de cordel, de reisados que ecoam ancestralidade. E, agora, sentado ali, na minha varanda, com a xícara de café na mão ainda firme, ele é a imagem da sabedoria e âncora de minhas referências.
Nos lapsos de memórias dos tempos idos, ele encontra versos guardados das procissões juninas, da força das festas de fim de ano, do bater do pilão a fazer o fubá fresco. Ele é a história que me dá norte, o alicerce que me fixa ao chão que piso. Eu fico comigo pensando: ele poderia estar ausente como minha mãe que partiu há quase dez anos, mas não, ele permaneceu ficar até aos 100 anos completos, sadio como ele está, isso é uma bênção e uma vitória maior do que qualquer epopeia.
Clamo pro abraço e ele se entrega. É o abraço de quem sabe que ainda vive e vê o eterno no instante do aqui e agora. Naquele silêncio reflexivo em que, de vez em quando ele mergulha, inspira um amor que não precisa de palavras, cerimônias ou de presentes. É amor que transborda pelo fato de ainda estar aqui — presença que cicatriza as dores e ilumina minha vida.
Todos os dias eu te celebro, meu pai, o pai que jamais sairá de dentro de mim. Celebro teus passos que caminham lentos, celebro tua voz forte que me chama e ainda reclama. Porque a tua presença aqui, hoje, é o meu mais doce e suave presente — é felicidade sem fim que brota sem nota nem rima, mas que anima com ternura e me ensina tudo o que eu gostaria de ser.
Salvador-B, 10 de agosto de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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