O Tempo Passa

Há dias em que o tempo se arrasta — lento, quase incômodo. Mas há dias — e estes são os mais traiçoeiros — em que ele escapa de nossas mãos, nas pontas dos dedos e, de repente, só nos restam as sombras daquilo que um dia fomos.

Quando criança, eu via na minha bisavó Mãe Luzia aquela leveza nos gestos, o sorriso espontâneo ao debulhar histórias de sua vida que tanto me encantavam. Seu rosto carregava o calor de memórias que não pediam licença, nem anunciavam sua chegada — apenas apareciam, como velhos amigos. Hoje, a minha bisavó é apenas memória: sua expressão singela foi esculpida em marcas que o tempo insiste em renovar, suaves ranhuras de cansaço e luta. A graça que um dia brilhou em seus olhos agora se esconde atrás de um depósito repleto de saudade que me enche o peito ao perceber essa sutil metamorfose.

O tempo não exige permissão para roubar: ele vem, toma e segue. Foge com a vivacidade, com a leveza, com o espontâneo. Constrói camadas, dizima encantos. Diariamente, milhares de pessoas atravessam a cidade — rostos sem brilho, passos sem impulso, sorrisos ensaiados, quase ensimesmados. E talvez isso seja apenas marcas da rotina que nos polvilha com cinzas: é a vida que se repete até perder o viço, até a graça evaporar, deixando apenas o bagaço que já não encanta.

E se o tempo fosse um ladrão invisível, como aquele que atravessa muros por caminhos ocultos, furtando o vigor do olhar, a alegria do existir, a curiosidade do mundo? E se ele não levasse tudo de uma só vez, mas fosse paciente, persistente, arrancando, delicadamente, o que há de mais luminoso em cada um de nós?

Mas há um detalhe inquietante nessa imagem cruel: a graça, o encanto, ainda existem — mesmo que na respiração mais contida, no silêncio que reverbera como lembrança, na memória que insiste em iluminar, por um segundo, aquela passagem que dávamos por perdida. A beleza espreita, escondida em um gesto de ternura que ainda resiste. Esse brilho pequeno e frágil é como a chama teimosa da vela que ilumina o Santíssimo: ainda está lá, sempre acesa, embora trêmula.

E então vem o momento em que, de repente, o encanto ressurge. Um acontecimento mágico em meio à tristeza, uma chama espontânea rompendo a barreira do tempo, uma lembrança que chega sem convite, uma pessoa que se redescobre trazendo luz e calor — e com ela, a graça retorna, mesmo que seja bem distante no espaço e, mais ainda, no tempo. E é aí que, claramente, percebemos: o tempo pode nos roubar muito, mas o que é essencial permanece à espreita. A graça pode dormir, mas não se anula.

O tempo passa e rouba, mas não rouba tudo. Nós podemos cultivar o que nos resta. Guardar o brilho, fomentar a gentileza, reencontrar o ritmo suave dos gestos possíveis que nos definem. Ainda que os anos deixem suas marcas, viver é encontrar, todos os dias, a forma — ainda que tênue — de manter acesa a graça que nos faz humanos com todas as nossas virtudes e fraquezas.

Salvador-Ba, 15 de agosto de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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