Português de nascimento, italiano de coração, universal na devoção. Era frade, doutor da Igreja, pregador inflamado. Mas, para o povo, ele sempre foi aquele que ajudava a encontrar coisas perdidas, inclusive a esperança.
Antônio nasceu Fernando, com berço em Lisboa e alma sedenta de Deus. Abandonou o conforto dos cônegos para seguir o rastro dos franciscanos, e nunca mais foi o mesmo. Foi pobre por escolha, e rico em sabedoria. Falava com os homens e falava com os peixes — e ambos o escutavam, o que nem sempre se pode dizer de nós mesmos.
Conta-se que certa vez um herege o desafiou: “Se o burro se ajoelhasse diante da hóstia consagrada, acreditarei.” Sanro Antônio orou, confiou, e o burro, faminto e descrente, recusou o feno e dobrou os joelhos diante do altar. O herege se converteu. O povo se emocionou. E o santo… o santo apenas sorriu, como quem diz: “Quando há fé, até o improvável se ajoelha.”
Na tradição popular, Santo Antônio é o santo dos casamentos. “Casamenteiro”, dizem as moças em tom de súplica e riso. Quantos bilhetes deixados a seus pés, quantas imagens viradas de cabeça pra baixo, ameaçadas de castigo até que tragam um noivo! E ele, paciente e afável, vai ajeitando destinos, como quem costura afetos no silêncio das preces.
Mas Santo Antônio foi muito mais do que santo de altar de junho. Ele era um homem piedoso, de livros e ruas. Subia nos púlpitos com a Bíblia na mão e descia aos becos pobres distribuindo pão aos famintos. Ensinava aos doutos com erudição e aos simples com parábolas. E é isso que o torna tão especial: sabia falar tanto com os sábios quanto com o povo.
Pádua o acolheu em seus últimos dias, mas Lisboa nunca o esqueceu. E o mundo inteiro, ao ouvir o nome “Santo Antônio”, parece se lembrar de algo querido, íntimo, quase da família.
Hoje, nas festas juninas, entre balões, fogueiras e cantigas, lá está ele, o franciscano do povo, rodeado de fé e alegria. Não há devoto que não lhe confie um segredo. Não há coração que não se comova com sua ternura firme, com sua fé que move até as pedras.
Santo Antônio – o santo dos enamorados, das causas perdidas, das palavras justas, dos milagres discretos, dos pães distribuídos em abundância. Um santo que, se vivesse hoje, talvez trocasse a mula por uma bicicleta, mas nunca deixaria de escutar o povo com o mesmo amor.
Conta-se, entre as muitas lendas e historias que cercam Santo Antônio de Lisboa — ou de Pádua, como também é chamado — que o santo casamenteiro uma certa vez se envolveu num caso de amor… alheio, é claro!
Era uma vila pequena, onde uma jovem de nome Maria, já beirando os trinta, era alvo da piedosa preocupação da mãe, que a todo momento lembrava:
— Minha filha, tua idade já virou a esquina. Tá passando da hora de casar. Santo Antônio que te ajude!
E ajudou.
Numa noite de festa na igreja, Maria fez uma promessa ousada diante do altar do santo:
— Se o senhor me arranjar um bom marido até o final do mês, lhe dou meu melhor bolo de fubá com erva-doce!
Eis que no dia seguinte apareceu Joaquinho — moço de olhos tímidos e voz embargada — novo ajudante da venda, recém-chegado de outra freguesia. Um olhar, um sorriso, uma entrega de pão — e pronto. Maria se encantou.
Mas, como todo bom enredo de romance, havia um detalhe: Joaquinho era medroso. Muito medroso. Quando soube da fama de Santo Antônio, o “santo que obriga a casar”, começou a desconfiar da súbita aproximação e da evolução dos acontecimentos..
— Se eu demorar demais, esse santo me pega, dizia ele para si mesmo, olhando desconfiado a imagem do franciscano no altar.
E então aconteceu: no dia em que a mãe de Maria anunciou que ia chamar o padre para marcar o noivado, Joaquinho sumiu. Evaporou-se. Só deixou um bilhete:
“Fui pensar na vida. Volto quando o santo permitir.”
Maria, indignada, marchou até a igreja, agarrou a imagem de Santo Antônio com firmeza, olhou nos olhos do santo de pedra e disse:
— Se o senhor o trouxe até aqui, trate de não deixá-lo fugir!
E não é que o santo ouviu?
Dizem que, naquela mesma noite, Joaquinho teve um sonho estranho: estava casando, e o padre era não menos que Santo Antônio.
Joaquinho acordou suando frio, correu de volta para a vila, pediu perdão à Maria e marcou a data do casamento com tamanha pressa que mal deu tempo de assar o bolo prometido.
E assim, Santo Antônio ganhou não só mais um casal unido, mas também o bolo de fubá mais comentado da freguesia.
Dizem que até hoje, nas noites de 13 de junho, um certo aroma de erva-doce paira no ar nos altares do santo.
Salvador-BA, 13 de junho de 2025
José Joaquim de Oliveira
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