Desde menino, aprendi que antes de qualquer coisa importante — uma prova, uma viagem, uma decisão difícil — fazia-se o sinal da cruz. Era quase um reflexo: a mão direita ia à testa, ao peito, depois aos ombros. Não sabíamos bem o porquê, mas sabíamos que ali havia proteção, um gesto antigo, quase mágico, cheio de fé.
“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
Havia nisso uma reverência que ia além das palavras. O sinal da cruz não era apenas uma prece sussurrada com a ponta dos dedos, mas uma âncora. Um modo de se lembrar de onde viemos, a quem pertencemos, e para onde estamos indo — mesmo quando tudo ao redor parecia incerto.
Fazia-se o sinal da cruz ao entrar na igreja, ao sair de casa, ao ver uma ambulância passar — por alguém, por todos, por ninguém. Era uma linguagem sem som, mas com sentido. Um gesto que dizia: “Eu creio. Eu confio. Eu me entrego.”
Mais tarde, entendi que o sinal da cruz é também um mapa do nosso viver. A linha vertical — da testa ao coração — nos conecta com o Alto, com o que transcende, com o invisível que move o visível. A linha horizontal — de ombro a ombro — nos liga ao outro, ao irmão, ao mundo real e imperfeito que nos cerca. Assim, cada cruz traçada no ar é uma pequena síntese da vida: fé e humanidade, céu e chão, divino e cotidiano.
Há quem diga que o mundo já não tem mais tempo para esses gestos. Que tudo é pressa, lógica, resultado. Mas eu insisto: há uma sabedoria antiga no sinal da cruz. Ele nos recentra, nos reposiciona no tempo e no espaço. É um lembrete silencioso de que somos corpo, alma e esperança.
E quando a vida pesa — e às vezes pesa — não raro me pego, quase sem perceber, refazendo o gesto. Toque na testa: clareza; no peito: amor; no ombro esquerdo: o fardo e no direito: a força. E sigo.
Lembro-me, com clareza cristalina, que havia uma cruz na sala da casa do sítio de meu avô. Não era pendurada na parede, como se esperaria, mas sobre um oratório, ambos feitos de madeira rústica, simples, quase tosca. Ninguém sabia quem a colocara ali. Chegou como chegam certas dores: silenciosas, imponentes, impossíveis de ignorar.
Alguns diziam que era um símbolo. Outros, que era um aviso. Teve quem jurasse que era uma provocação. Mas, no fundo, todos sabiam — cada um à sua maneira — que aquela cruz era uma espécie de espelho.
A cruz do outro sempre parece mais leve. Olhamos para ela com a presunção de quem acredita que saberia carregá-la melhor. “Ah, se fosse comigo…” é a frase não dita que ronda os olhares. Mas só quem sente o peso nos ombros conhece a crux crucis — o ponto onde a cruz se cruza com a alma.
É curioso como falamos tanto em carregar a cruz, mas tão pouco em escolhê-la. A maioria das cruzes que nos cabem não foram encomendadas. Vêm feitas sob medida pelas circunstâncias, pela biografia, por heranças invisíveis ou acasos fatais. E mesmo assim, ali estão: são nossas.
Mas há um segredo sutil, revelado só aos que param diante da própria cruz sem pressa, sem desespero, sem máscara: a cruz não é só peso, também é ponto de apoio. Quem a aceita com humildade descobre que há um modo de equilibrá-la no corpo da vida. Nem sempre ela machuca. Às vezes, ensina a superar, e ensina muito.
A cruz da sala de meu avô continuou ali a testemunhar o tempo passar. Alguém colocava flores ao lado. Outro deixava bilhetes. Um dia, sem que ninguém percebesse, ela desapareceu. Restou apenas a marca sobre a madeira do oratório — um contorno bem claro, uma lembrança de que já não estava mais ali.
Afinal, talvez o maior mistério da cruz não seja o sofrimento, mas a possibilidade da transfiguração. A crux crucis é, no fim das contas, o lugar onde a dor encontra sentido. E onde, se formos pacientes, o peso vira ponte onde antes só havia abismo.
Salvador-Ba, 09 de junho de 2025.
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