Era véspera de Natal. As luzes piscavam nas janelas das casas pela cidade, e as ruas, embora mais silenciosas do que o habitual, ainda tinham resquícios do espírito natalino. No entanto, para mim, aquela noite parecia ausente de qualquer brilho. Estava no hospital, ao lado da cama do meu pai 99 anos, que dormia sob o efeito de medicamentos.
O corredor do hospital era quase tão vazio quanto meu coração naquele instante. O som dos passos dos poucos enfermeiros de plantão ecoava baixo e, vez ou outra, ouviam-se murmúrios abafados de conversas em quartos vizinhos. Havia um pequeno pinheiro decorado na recepção, com enfeites tímidos, talvez numa tentativa de lembrar a todos que era Natal, mesmo ali, no espaço onde a esperança e o medo se alternam como o movimento das marés.
Olhei para o rosto do meu pai. Estava com aspecto cansado, abatido pela septsemia, mas ainda assim familiar, carregando as marcas de uma vida cheia de histórias. Pensei em como ele sempre fazia questão de tornar o Natal especial para nossa família. Lembrei- me das risadas ao redor daquela mesa, daquela cruz a ornamentar a sala, do cheiro de assado ao forno, das mesmas músicas que ele insistia em tocar na radiola que ele cuidava com tanto zelo e carinho. Naquele momento, parecia difícil acreditar que um dia tudo fora assim.
Segurei sua mão frágil e penetrada por acessos para soros e medicamentos, e senti um misto de tristeza e gratidão. Tristeza pela situação que nos mantinha ali, longe de casa, longe da família reunida. Gratidão por ainda tê-lo comigo tão perto, mesmo que sob condições tão difíceis. Era um Natal solitário, sim, mas não desprovido de significado.
À meia-noite, enquanto o mundo celebrava, senti uma pequena movimentação. Ele abriu os olhos, lentamente. Não disse nada, mas o olhar parecia mais lúcido do que nos dias anteriores. Aquele breve instante de conexão foi como um presente inesperado, um sopro de vida em meio a tantas incertezas.
Depois de um tempo, ele voltou a adormecer, e eu permaneci ali, no silêncio do quarto, refletindo sobre o verdadeiro significado daquela data. Natal não era apenas luzes, presentes ou festas, mas a celebração de um misterio de amor que dá sentido à nossa existência, dá força de continuar acreditando, mesmo quando tudo parece desmoronar.
Naquela noite, aprendi que, mesmo em um Natal solitário, a essência pode estar presente — nos pequenos gestos, na memória de momentos felizes e na esperança de dias melhores. E foi assim, ao lado do meu velho pai doente, que descobri um novo tipo de milagre – o milagre natalino.
Salvador-BA, 29 de dezembro de 2024
José Joaquim de Oliveira
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