Neste Domingo, a liturgia nos apresenta a parábola do banquete de casamento (Mateus 22,1-14). Um rei prepara a festa para as núpcias de seu filho e manda chamar os convidados. A mesa está posta, tudo está preparado, mas muitos daqueles que receberam o convite se recusam a comparecer. Alguns preferem cuidar de seus negócios; outros simplesmente ignoram o chamado.
A parábola nos coloca diante de uma questão que ultrapassa os limites da religião: o que fazemos com o convite de Deus?
Deus não aparece nessa passagem como alguém que exige ser servido, mas como aquele que prepara um banquete e deseja compartilhar sua alegria. A imagem é profundamente significativa. O Reino dos Céus não é apresentado como uma recompensa material, nem como um privilégio reservado a poucos, mas como a comunhão para a qual Deus chama seus filhos.
O drama começa quando os convidados, absorvidos pelos próprios interesses, deixam de reconhecer o valor daquele chamado. Não se trata de afirmar que o trabalho, os compromissos e as responsabilidades cotidianas sejam incompatíveis com a fé. O problema surge quando essas ocupações passam a ocupar todo o horizonte da existência, deixando a Deus apenas o espaço que sobra — quando sobra.
Também nós podemos conservar os sinais exteriores da religiosidade e, ainda assim, permanecer distantes do Evangelho. Podemos frequentar a Igreja, participar das celebrações e conhecer as Escrituras sem permitir que a Palavra questione nossas escolhas, corrija nossas atitudes ou nos torne mais atentos à dor do próximo.
A fé cristã não se resume à presença física no templo. Ela exige uma disposição interior que se manifesta na maneira como tratamos as pessoas, exercemos nossas responsabilidades, reconhecemos nossos erros e enfrentamos as injustiças. O convite de Deus não nos retira do mundo; compromete-nos com ele de outra maneira.
Há, porém, um detalhe desconcertante no final da parábola. Depois que os primeiros convidados recusam o chamado, o rei manda seus servos às encruzilhadas para reunir todos os que encontrarem, bons e maus. A sala fica cheia. A generosidade do convite rompe as fronteiras que os homens costumam estabelecer entre os que consideram dignos e os que julgam indignos.
Mas a parábola não termina aí. Um dos convidados está sem a veste nupcial, e o rei o interpela.
Essa passagem nos impede de interpretar a misericórdia divina como indiferença diante da maneira como vivemos. Todos são chamados, mas acolher o convite implica uma resposta. Não basta entrar na sala do banquete; é preciso compreender o significado de estar ali. Na tradição cristã, a veste nupcial pode ser entendida como expressão de uma vida transformada pela graça, uma existência que procura corresponder ao amor recebido.
Deus não nos pede uma perfeição que dispense o arrependimento. Pede que não façamos da própria imperfeição uma justificativa para permanecer indiferentes à sua Palavra. A conversão não é a declaração de que já somos justos, mas o reconhecimento de que precisamos continuamente da misericórdia de Deus.
A primeira leitura deste domingo, do profeta Isaías, amplia essa perspectiva ao anunciar o dia em que o Senhor eliminará a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces (Isaías 25,6-10a). O banquete do Evangelho e a promessa do profeta se encontram na esperança de uma comunhão definitiva com Deus, na qual o sofrimento e a morte não terão a última palavra.
É para essa esperança que caminhamos. Não por nossos méritos, como se a salvação fosse um prêmio conquistado, mas pela graça de Deus, acolhida na fé e vivida na caridade.
Neste domingo, portanto, a pergunta não é apenas se acreditamos em Deus, mas se nossa maneira de viver corresponde ao convite que recebemos. A religião pode tornar-se um hábito, a oração pode transformar-se em repetição e a participação na Igreja pode perder seu sentido quando deixamos de escutar aquilo que o Senhor nos diz.
O banquete está preparado. O convite permanece aberto. A questão decisiva é saber se estamos dispostos a abandonar a indiferença, reconhecer nossa necessidade de conversão e aceitar que a Palavra de Deus tenha autoridade sobre nossas escolhas.
Porque o convite é gratuito, mas não é vazio de exigências: quem é chamado à mesa do Senhor é chamado também a uma vida que testemunhe o amor daquele que o convidou.
Salvador-BA, 10 de outubro de 2026
José Joaquim de Oliveira
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