Há homens que passam pela História não apenas pelo que descobriram, mas pela maneira como olharam o mundo. Isaac Newton foi um desses homens.
Quando pensamos em Newton, quase sempre nos vêm à lembrança as equações, as leis do movimento, a gravitação universal e aquela famosa história da maçã que teria despertado sua curiosidade sobre a força que mantém os corpos presos à Terra. Pensamos no cientista, no matemático, no homem que procurou traduzir o funcionamento do universo em fórmulas.
Mas existe um Newton que muitas vezes esquecemos: o homem que também se ajoelhava para orar.
Para ele, a natureza não era um conjunto de fenômenos sem sentido. O universo possuía ordem, regularidade e leis que podiam ser descobertas pela razão. E, por trás dessa ordem, Newton enxergava a presença de Deus.
Sua mesa de trabalho poderia ser imaginada como um encontro de dois instrumentos aparentemente diferentes: a equação e a oração.
Com a equação, procurava compreender como o universo funcionava.
Com a oração, procurava compreender o sentido de existir dentro desse universo.
Uma lhe dava respostas sobre os movimentos dos astros; a outra lhe lembrava que, por mais que a inteligência humana avance, sempre haverá mistérios diante dos quais precisamos reconhecer nossos limites.
Newton não via necessariamente uma guerra entre ciência e fé. Ao contrário, para ele, estudar a criação era também uma forma de contemplar o Criador. Quanto mais descobria sobre as leis que governavam os céus e a Terra, maior parecia ser o mistério diante de seus olhos.
Quem sabe, esteja aí uma grande lição para o nosso tempo.
Vivemos cercados por números, estatísticas, algoritmos, modelos matemáticos, máquinas inteligentes, inteligência artificial e tecnologias capazes de realizar tarefas que, há poucas décadas, pareciam impossíveis. Temos instrumentos cada vez mais sofisticados para medir, calcular e explicar.
Mas há perguntas que nenhuma equação consegue resolver.
Quanto vale uma amizade verdadeira?
Qual é o preço de uma consciência tranquila?
Por que sentimos saudade?
De onde nasce o amor?
O que acontece com a esperança quando tudo parece perdido?
E, sobretudo, qual é o sentido da nossa breve passagem pela vida?
Para essas perguntas, a matemática pode até nos ajudar a compreender alguns aspectos da realidade, mas não consegue oferecer todas as respostas.
Não é à toa que a humanidade tenha inventado, desde os tempos mais antigos, esse outro instrumento chamado oração.
A equação procura a ordem das coisas.
A oração procura a paz dentro de nós.
A equação pergunta “como?”
A oração muitas vezes pergunta “por quê?”
Uma amplia o conhecimento.
A outra pode ampliar a sabedoria.
Newton nos deixou leis capazes de explicar o movimento dos corpos celestes. Mas também nos deixou, ainda que involuntariamente, uma provocação: não basta conhecer o funcionamento do universo; é preciso aprender a contemplá-lo.
Há uma grandeza especial quando a inteligência se curva diante do mistério.
A verdadeira sabedoria se encerra, justamente, nesse equilíbrio: usar a razão para compreender aquilo que podemos explicar e usar a fé para acolher aquilo que ultrapassa nossa compreensão.
Entre uma equação e uma oração, Newton construiu uma maneira de olhar o mundo.
Não é demais afirmar que nós também precisemos, de vez em quando, afastar os olhos das telas, dos números e das preocupações do quotidiano, levantar a cabeça e contemplar o céu.
Porque existem coisas que a inteligência calcula e existem outras que somente o coração, em silêncio, consegue compreender.
Salvador-BA, 9 agosto de 2026.
José Joaquim de Oliveira
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