Coisas que não voltam

Vivemos tentando recuperar o tempo perdido, reviver momentos, reencontrar pessoas e reconstruir situações.

Mas, há coisas que, uma vez passadas, nunca mais voltam: a infância dos filhos, a presença dos pais, o primeiro dia do trabalho, a última conversa com um amigo que se foi, a saúde desperdiçada e as oportunidades perdidas. Essa constatação, porém, não precisa ser motivo de tristeza. Ao contrário, ela nos ajuda a valorizar o presente. Se algumas portas se fecharam para sempre, outras ainda permanecem abertas. A vida não nos pede que vivamos do passado, mas que aprendamos com ele.

Quem sabe, a sabedoria da vida esteja, justamente, em aprender a reconhecer as coisas que ainda estão conosco.

É preciso comprender que não mais voltam os dias na plenitude da força. A nossa vista que antes desprezava o passar do tempo, agora vai olhar para o calendário e para o relógio. Os filhos pequenos de mãos estendidas, pedindo apenas alguns minutos da nossa atenção são agora doces e até dolorosas lembranças.

E o que dizer dos domingos? Não voltam mais aqueles almoços em que a mesa parecia pequena para tanta conversa entre aqueles que a vida espalhou pelos caminhos do tempo.

Não voltam mais os primeiros dias da faculdade cheios de sonhos e expectativas. Tampouco voltam os colegas que fizeram parte da nossa caminhada e que hoje vivem apenas na memória. Algumas empresas desaparecem, alguns prédios são demolidos, mas as histórias vividas entre aquelas paredes permanecem de pé dentro de nós.

Não voltam os sonhos que deixamos escapar por medo, orgulho ou excesso de prudência. A vida costuma oferecer novas chances, mas nunca exatamente as mesmas.

Também não voltam certas palavras que deixamos de dizer. Um pedido de perdão adiado, um “eu te amo” guardado há tanto tempo, um “obrigado” que parecia desnecessário.

O silêncio, às vezes, pode cobrar um preço maior do que imaginamos.

O tempo nos ensina que viver não é apenas acumular dias, mas perceber o valor de cada instante, enquanto ele ainda está presente. Porque, quando se transforma em lembrança, já não pode ser vivido novamente.

Mas, nem tudo está perdido: embora muitas coisas não voltem, elas nunca desaparecem completamente. Permanecem vivas dentro de nós na forma de ensinamentos, saudades, gratidão e afeto. São elas que moldam quem somos.

Por isso, a melhor maneira de honrar o que não volta seja cuidar com mais carinho daquilo que ainda está ao nosso alcance: um abraço que pode ser dado hoje, um “Almoço Amigo” que não deve ser adiado, uma amizade que merece ser, cuidadosamente, cultivada, uma palavra de carinho que ainda pode ser, corajosamente, pronunciada.

A vida jamais nos devolve o tempo perdido, mas sempre nos oferece a oportunidade de fazer melhor com o tempo tudo aquilo que ainda nos resta.

Salvador-BA, 16 de julho de 2026

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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