Hoje, aposentado e diante do fim melancólico da Telebahia/Telemar/Oi, descobri uma verdade que durante décadas me escapou: nunca existiu prêmio algum para quem entrega a vida inteira a uma empresa, a não ser o prêmio da sensação do dever cumprido e da missão realizada.
Passei anos perseguindo metas, cumprindo cronogramas, apagando incêndios e assumindo responsabilidades como se o mundo dependesse da minha presença. Dormi pouco, viajei muito, adiei férias, sacrifiquei fins de semana, ceias de Natal e de Ano-Novo e, muitas vezes, deixei de estar onde meu coração, realmente, queria estar.
Ficou a satisfação de ter contribuído para levar desenvolvimento e comunicação ao povo baiano. Tenho imenso orgulho do trabalho realizado. Mas o instrumento dessa missão, a empresa que me proporcionou realização profissional e à qual dediquei os melhores anos da minha vida, já não existe mais.
Perdi aniversários dos meus filhos. Faltei a apresentações na escola. Cheguei tarde a celebrações familiares. Dizia a mim mesmo que tudo aquilo era por uma boa causa, que um dia o esforço seria recompensado. A empresa havia se tornado parte da minha identidade. Seu nome era, quase, o meu sobrenome.
Por isso, parecia impensável imaginar que um dia a Telebabia/Telemar/Oi deixaria de existir. Mas esse dia chegou.
O curioso é que, quando deixei a empresa, ela continuou existindo, exatamente, como antes. No dia seguinte à minha saída, outras pessoas já ocupavam as salas, participavam das reuniões, respondiam aos e-mails e davam continuidade ao trabalho. A engrenagem não parou — e nem deveria parar.
Eu, que tantas vezes coloquei a empresa acima de mim mesmo, descobri que bastou devolver um crachá para não poder mais atravessar aqueles portões que, durante tantos anos, pareciam fazer parte da minha própria história.
Não escrevo estas linhas com ressentimento. As empresas existem para cumprir sua missão, e as pessoas passam por elas para ajudar a realizá-la. Assim funciona a vida profissional.
Entretanto, há algo que não desaparece. Empresas podem mudar de nome, ser incorporadas ou até desaparecer. O que não desaparece é o legado das pessoas que por elas passaram. Milhares de profissionais dedicaram inteligência, esforço e esperança para desenvolver produtos e serviços, conectar cidades, aproximar famílias, impulsionar negócios e ajudar a transformar a vida de milhões de baianos. A empresa pode ter chegado ao fim, mas o bem que ela realizou por meio de seus colaboradores continua presente na História da Bahia e na memória de quem foi alcançado por esse trabalho.
Há outro aprendizado que gostaria de relatar.
Nenhum cargo vale a saúde perdida. Nenhuma promoção compensa a ausência em momentos que jamais voltarão. Nenhum prazo cumprido substitui o abraço adiado. O trabalho dignifica o ser humano, mas nunca deveria ocupar o lugar reservado à família, aos amigos, à fé e ao cuidado consigo mesmo.
A aposentadoria não me ensinou apenas a desacelerar. Ensinou-me, e vale aqui ressaltar, que a verdadeira recompensa nunca esteve apenas na meta cumprida, mas também ao longo do trabalho realizado com dedicação e propósito, e, sobretudo, nas pessoas que caminhavam ao meu lado enquanto eu insistia em olhar apenas para a linha de chegada.
Hoje compreendo que o sucesso não deveria ser medido apenas pelos resultados que entregamos, mas também pela satisfação das pessoas que recebiam o fruto dos nossos serviços, bem como pelas lembranças que construímos, pelos afetos que cultivamos e pelas presenças que não deixamos escapar.
Ao encerrar a carreira, ninguém sente falta do estresse vivido, das horas extras ou das urgências que pareciam inadiáveis.
Não posso deixar de reafirmar a falta que faz os aniversários perdidos, os abraços adiados, as conversas que ficaram para depois e os momentos felizes que o trabalho jamais poderá devolver.
Para mim, esse seja o maior ensinamento da aposentadoria: o prêmio que se possa imaginar existir nunca esteve no fim da carreira. Sempre esteve ao longo dela, na alegria do dever cumprido, nas vidas que ajudamos a transformar e nas pessoas que nos amavam enquanto corríamos atrás de conquistas que fizeram diferença para tantos, mas que, um dia, inevitavelmente, deixariam de nos pertencer.
A empresa pode ter chegado ao fim, mas o bem que ela realizou por meio de seus colaboradores continua presente na história e na memória de quem foi alcançado por esse grandioso trabalho. Esse, sim, é um legado que o tempo não apaga.
Vale a pena deixar aqui registrado um mistério para mim.
Ao olhar para o destino da Telebahia/Telemar/Oi, fica uma pergunta que talvez nunca tenha uma resposta definitiva:
Como uma empresa que parecia tão sólida, querida pelos baianos, que ajudou a integrar pessoas, aproximou cidades e foi motivo de orgulho para tantos profissionais, pode, simplesmente, acabar?
Seria esse desfecho inevitável, fruto das transformações do mercado e da tecnologia? (o que é improvável, pois o mesmo processo transformador afetou outras empresas que permanecem). Ou foi a confluência de decisões equivocadas, oportunidades perdidas e erros acumulados ao longo do tempo?
Não sei.
Somente a história, quando puder ser contada sem paixões nem interesses, responda a essa pergunta. Até lá, resta-me preservar a memória do que ajudei a construir e o orgulho de ter feito a minha parte, com muito amor e empenho.
Salvador-BA, 14 de julho de 2026
José Joaquim de Oliveira
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