A paz nossa de todos os dias

Com uma pequena mudança de palavras, altera-se bastante o sentido de uma oração conhecida. Em vez de pedir o “pão nosso de cada dia”, alguém poderia pedir também a “paz nossa de todos os dias”. Não se trata de substituir uma necessidade por outra, mas de reconhecer que há coisas indispensáveis que não cabem sobre a mesa.

O pão alimenta o corpo. A paz, quando existe, permite que a vida seja vivida sem a permanente sensação de conflito. Mas a paz não costuma chegar pronta. Ela depende de muitas coisas pequenas: do modo como falamos, da maneira como escutamos, da disposição para não transformar toda divergência em ofensa.

Há dias em que a paz parece fácil. A casa está silenciosa, as notícias não nos alcançam com sua carga habitual de inquietação, ninguém nos contraria e conseguimos atravessar as horas sem grandes sobressaltos. Em outros, basta uma palavra atravessada, uma notícia inesperada ou uma discussão antiga para que aquilo que parecia tranquilo se desfaça.

É por isso que a paz precisa ser pensada no plural dos dias. Não basta desejá-la para o mundo enquanto alimentamos pequenas guerras dentro de casa, no trabalho, nas amizades ou nas conversas. A paz também se perde nas coisas aparentemente insignificantes: na ironia usada para ferir, na necessidade de ter sempre razão, na incapacidade de ouvir alguém até o fim.

Saber que existe uma paz que não depende inteiramente das circunstâncias não significa viver alheio aos problemas ou aceitar tudo em silêncio. Há ainda outra coisa muito importante: saber que todo conflito não precisa, necessariamente, ser prolongado e que algumas batalhas não merecem ocupar tanto espaço dentro de nós.

Conviver exige certa medida de tolerância. Pessoas diferentes pensam de maneira diferente, carregam histórias que desconhecemos e reagem às situações a partir de experiências que não são as nossas. Compreender isso não elimina os desacordos, mas pode impedir que eles se transformem em hostilidade.

A paz de cada dia começa, muitas vezes, numa escolha que ninguém percebe. É a resposta que deixamos de dar no mesmo tom de uma provocação. É a conversa que decidimos ter antes de tirar uma conclusão. É o pedido de desculpas que chega sem a necessidade de justificar o erro. É também o silêncio que não nasce de ressentimento, mas da percepção de que certas palavras, se forem ditas, apenas aumentarão a distância.

No mundo, fala-se muito em paz como se ela fosse tão somente um assunto de governos, tratados e grandes decisões. Tudo isso importa. Contudo, existe uma dimensão mais próxima, quase doméstica, da paz. Ela acontece entre pessoas que precisam continuar vivendo juntas depois de uma discussão, entre familiares que pensam de modo diferente, entre amigos que atravessam um desentendimento.

Assim se constrói essa “paz nossa de todos os dias”: não como uma promessa de que os conflitos desaparecerão, mas como uma disposição de fazer do diálogo uma possibilidade de saída.

E, assim como pedimos o pão para cada dia, podemos aprender a pedir também uma paz que se renove diariamente. Não uma paz abstrata, distante, reservada aos grandes discursos, mas aquela que começa quando decidimos não acrescentar mais uma agressão ao mundo que já nos parece suficientemente barulhento.

Por fim, precisamos entender que a paz está menos na ausência de problemas e mais na maneira como escolhemos lidar com eles. E essa escolha, ao contrário de muitas coisas que esperamos da vida, está frequentemente ao alcance de um gesto ou de uma pausa antes de responder.

Salvador-BA, 21 de julho de 2024

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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