Há doenças que chegam sem pedir licença e mudam, de repente, a rotina de uma pessoa. O corpo passa a exigir cuidados, consultas, exames e medicamentos. A vida, que antes parecia obedecer ao ritmo habitual, começa a ser organizada em torno de horários, resultados e expectativas.
É nesse cenário que a fé pode ocupar um lugar importante. Não como substituta da medicina, nem como promessa de cura para aquilo que a ciência ainda não consegue explicar, mas como uma maneira de enfrentar a doença sem permitir que ela ocupe todo o espaço da existência.
Quem tem fé não deixa de sentir medo, dor ou incerteza. Rezar não elimina, necessariamente, a angústia de uma espera, nem transforma uma notícia difícil em uma notícia boa. A oração não muda o que está acontecendo; muda a maneira como a pessoa permanece diante do que está acontecendo.
Há também algo muito concreto na experiência religiosa. A pessoa que adoece pode encontrar na comunidade alguém que escuta, visita, acompanha, prepara uma refeição ou simplesmente permanece ao lado dela. Em momentos de fragilidade, essa presença pode ter um significado que nenhuma explicação teórica consegue substituir.
A ciência tem investigado as relações entre espiritualidade, saúde, fé, estresse e qualidade de vida. Há indícios de que práticas como a oração e a meditação podem favorecer ao relaxamento e ajudar algumas pessoas a lidar melhor com situações difíceis. Mas ainda há muito a compreender, e seria imprudente transformar essas observações em promessas de cura.
A fé também não deveria ser usada para culpar quem não melhora. Uma pessoa pode rezar profundamente e continuar doente. Pode acreditar e, ainda assim, precisar de uma cirurgia, de medicamentos, de fisioterapia ou de acompanhamento psicológico. A doença não é prova da falta de fé, assim como a recuperação não é um prêmio concedido a quem acreditou mais.
É mais correto falar da fé como uma companhia que alivia a caminhada do doente. A fé pode ajudar a pessoa a suportar a espera, a conviver com aquilo que não pode controlar e a encontrar um sentido para continuar vivendo enquanto o tratamento segue seu curso.
Há momentos em que tudo o que resta é esperar. Esperar o resultado de um exame, a ação de um medicamento, uma cirurgia, uma notícia. Nesses intervalos, tão comuns na experiência humana, a fé pode ser uma forma silenciosa de permanecer de pé.
A medicina cuida do corpo com o conhecimento que acumulou. A fé cuida de uma dimensão que não cabe inteiramente nos exames e nos prontuários. Uma não precisa disputar espaço com a outra.
A fé que cura é, antes de tudo, aquela que não promete o que não pode cumprir. É a que acompanha, sustenta e permite atravessar a doença sem transformar o sofrimento em abandono.
Salvador-BA, 30 de junho de 2024
José Joaquim de Oliveira
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