Entre o nascimento e a morte construímos histórias, estabelecemos vínculos, alimentamos esperanças, enfrentamos perdas e procuramos compreender o sentido da nossa passagem pelo mundo. Ainda assim, por mais que a ciência amplie o conhecimento sobre a vida, permanece diante de nós o mistério da existência.
Para a fé cristã, a vida não é um acidente sem significado, nem a morte representa simplesmente o apagamento de tudo o que fomos.
Viemos de Deus e, em Cristo, encontramos a promessa de uma vida que ultrapassa os limites da nossa condição terrena.
O livro do Gênesis apresenta a origem humana numa imagem de extraordinária beleza: Deus modela o homem do pó da terra e sopra em suas narinas o sopro da vida (Gn 2,7). Há, nessa passagem, uma verdade que merece nossa contemplação: somos feitos da terra, sujeitos à fragilidade e à finitude, mas carregamos em nós o sopro que nos permite buscar o transcendente.
A nossa condição é, portanto, marcadas por dois horizontes: a fragilidade da matéria e a abertura ao mistério de Deus.
O tempo, entretanto, não nos pertence.
Passamos pela infância, pela juventude e pela maturidade; vemos partir pessoas que amamos e percebemos, pouco a pouco, que também nos aproximamos do limite da nossa jornada. Aquilo que ontem parecia distante torna-se uma possibilidade concreta. As certezas que construímos sobre o futuro cedem espaço à consciência de que não temos domínio sobre a duração da própria vida.
É nesse confronto com a finitude que a fé adquire uma dimensão particularmente profunda. Não para nos oferecer respostas fáceis a todas as perguntas, mas para nos lembrar de que a morte não tem a última palavra na esperança cristã.
Jesus declara: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá» (Jo 11,25). Essa afirmação está no centro de toda a fé católica.
A Ressurreição de Cristo não elimina o sofrimento da despedida, nem torna menos dolorosa a ausência daqueles que amamos. Ela anuncia, porém, que a morte não constitui o destino definitivo daqueles que vivem na promessa de Deus.
Crer na vida eterna não significa desprezar a vida presente. Ao contrário: significa reconhecer a sua dignidade e a responsabilidade que3 temos diante dela.
Se a existência é limitada, cada escolha adquire importância. O bem que praticamos, a justiça que defendemos, o perdão que concedemos, a solidariedade que oferecemos e o amor que dedicamos ao próximo não são gestos insignificantes diante da eternidade. São expressões concretas da fé que professamos.
Não sabemos quando chegará a nossa hora. Sabemos, contudo, que os dias nos são dados, mas não nos são garantidos. Por isso, a questão essencial não é apenas quanto tempo viveremos, mas o que faremos com o tempo que nos foi concedido.
Uma das maiores dificuldades humanas é aceitar que não somos senhores da própria existência. Queremos planejar, acumular, controlar e adiar, como se o futuro fosse uma propriedade nossa. A sabedoria cristã nos convida a outra atitude: viver com responsabilidade, sem transformar os bens terrenos em absolutos, e reconhecer que a nossa existência encontra o seu sentido mais profundo na relação com Deus e com o próximo.
O princípio da vida é um mistério; o seu fim, para a razão humana, permanece envolto em perguntas. Para a fé cristã, entretanto, a morte não encerra a2 história: coloca-nos diante da promessa da eternidade.
A finitude da vida não precisa nos conduzir ao desespero; pelo contrário, ela pode nos ajudar a discernir o que realmente merece o uso do nosso tempo, da nossa dedicação e do nosso amor.
Que Deus nos conceda a graça de compreender que a vida não se mede apenas pelos anos que acumulamos, pelas conquistas que alcançamos ou pelos bens que deixamos. Mede-se, principalmente, pela capacidade de amar, pela fidelidade ao bem e pela maneira como respondemos ao chamado de Deus enquanto caminhamos neste mundo.
E, quando chegar o momento de atravessarmos a última fronteira, que a nossa esperança esteja firmada não naquilo que conseguimos acumular nesta vida, mas Naquele que nos prometeu a vida eterna.
Porque, para quem crê em Cristo, a morte é o fim da existência terrena, mas não o fim da esperança.
Que o Senhor ilumine a nossa caminhada, fortaleça a nossa fé e nos prepare, com serenidade e confiança, para o encontro definitivo com Ele. Amém.
Salvador – BA, 24 de outubro de 2026.
José Joaquim de Oliveira
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