Tintino

Meu avô Severino Tintino era um mestre de armas. Consertava todo tipo de espingarda e revólver. Fazia dobradiças, ferrolhos, foices, enxadas e tantas outras peças, tudo forjado em uma oficina rudimentar que ele chamava de Tenda.

A oficina era composta por uma fornalha soprada por um fole manual acionado por meu tio Antônio Mourão, e por uma bigorna de vinte quilos.

Naquela época, eram raras as lojas de ferragens no interior da Paraíba. As ferramentas utilizadas nas fazendas da região eram forjadas por ele.

Meu avô era muito conhecido pelo pessoal da roça, no município de Esperança.

Recebia dezenas de cartas vindas do Rio de Janeiro e de São Paulo, destinadas ao pessoal dos sítios, cujo endereço muitas vezes se resumia a: “Aos cuidados de Severino Tintino, Esperança-PB.”

A Tenda, aos sábados, era uma verdadeira feira. Guardo comigo lembranças muito vivas e valiosas do tempo em que a Tenda funcionava como centro de convivência da comunidade, onde o trabalho de meu avô se misturava às trocas, às cartas, às visitas e à vida dos sítios.

Tudo isso me dá uma força testemunhal e afetiva muito bonita.

As pessoas traziam para meu avô macaxeiras, perus, galinhas, ovos, abóboras, melancias, abacates, cajus e jabuticabas. E ainda havia os passeios para os almoços de domingo nos sítios da redondeza. Vivi tudo isso ao lado de meu avô, de meu tio Mourão e do tio e primo Daniel, dois anos mais velho que eu

Daniel era filho da segunda família de meu avô Tintino, que, após ficar viúvo, casou-se com uma irmã de meu pai. Meu pai, por sua vez, casou-se com a filha mais velha de Tintino. Por isso, Daniel era meu tio, por ser meio-irmão de minha mãe, e, ao mesmo tempo, meu primo, por ser sobrinho de meu pai. Ele era uma criança habilidosa. Forjava soldadinhos, bois e cavalos de chumbo, obtido dos restos de munições imprestáveis que sobravam das armas que meu avô consertava.

Assim vivi minha infância, em uma pequena e pobre cidade do interior da Paraíba, na década de 1960, sem nunca ter visto um brinquedo comprado em lojas infantis.

Salvador-BA, 27 de julho de 2024

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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