O que há em comum entre o gaúcho Bento Gonçalves e a Bahia?
À primeira vista, quase nada.
De um lado, a Bahia, com seu mar, seu calor, suas ladeiras, suas igrejas, seus mercados, suas lendas e a icônica Baía de Todos-os-Santos. Do outro, o Rio Grande do Sul, com suas grandes extensões de campo, os pampas — “a planície gaúcha onde sopra o minuano”, segundo Érico Veríssimo —, seu clima, sua cultura e uma história marcada pelas guerras e disputas políticas do século XIX.
E, no entanto, houve um momento em que essas duas terras se encontraram na vida de um homem: Bento Gonçalves da Silva, uma das principais lideranças da Revolução Farroupilha.
Capturado durante a guerra, em 1836, Bento Gonçalves foi enviado para Salvador no ano seguinte e encarcerado no Forte de São Marcelo, no coração da Baía de Todos-os-Santos.
É curioso imaginar aquele homem do Sul chegando à Bahia.
Vinha de um mundo de campos abertos marcados a cascos de cavalos, de fronteiras e combates, e encontrava uma cidade inteiramente diferente daquela que conhecia. Salvador tinha o movimento das ruas, o comércio, as embarcações entrando e saindo do porto, os sinos das igrejas e, diante de tudo isso, um forte cercado pelo mar.
O Forte de São Marcelo tem uma presença singular. Visto da cidade, parece uma ilha construída pela mão humana. Visto de dentro, é fácil imaginar como o mar poderia assumir outro significado para quem estava privado da liberdade. Bento Gonçalves tinha as águas da baía diante dos olhos, mas não podia simplesmente atravessá-las.
Enquanto a cidade continuava seu cotidiano, o prisioneiro vivia outro tempo. As mesmas horas que para uns passavam entre trabalho, comércio e encontros pareciam, para ele, medir a distância entre a prisão e a liberdade. Certamente pensava nas batalhas no Rio Grande do Sul, nos companheiros de luta, na família, nos caminhos percorridos e na guerra que ainda estava longe de terminar.
Contudo, há algo particularmente simbólico nessa história. Um homem acostumado à imensidão e aos ventos gelados dos pampas estava preso dentro de uma fortaleza quente e cercada pela vastidão do mar. Do lado de fora, nenhuma muralha além da água. Do lado de dentro, as pedras lembravam que o horizonte, por mais próximo que parecesse, ainda estava fora de alcance.
Bento Gonçalves, porém, não permaneceria ali por muito tempo. A história registra que, após alguns meses de confinamento, ele conseguiu fugir do Forte de São Marcelo em setembro de 1837, retomando sua trajetória militar e política no Sul.
É justamente nesse episódio que a Bahia e o Rio Grande do Sul passam a fazer parte de uma mesma narrativa. Bento Gonçalves não era baiano, Salvador não era o cenário de sua vida pública e a Bahia não fazia parte dos combates farroupilhas. Ainda assim, por uma circunstância do destino, a terra gaúcha e a terra baiana se encontraram dentro daquelas muralhas. Esse é o elo que vale realçar — um fato histórico verdadeiro que aproxima essas duas gentes.
A história brasileira não foi construída apenas nos lugares onde as grandes batalhas aconteceram. Ela também foi feita nos deslocamentos, nos exílios, nas prisões e nos encontros inesperados entre homens e lugares que, em princípio, nada tinham em comum.
O Forte de São Marcelo permanece diante de Salvador, testemunhando silenciosamente a passagem do tempo. Bento Gonçalves faleceu anos mais tarde, em 1847, após o fim da Revolução Farroupilha. O homem desapareceu, a guerra terminou e as circunstâncias daquele século ficaram para trás, mas a memória permaneceu.
Quando se olha hoje para o forte, é difícil não imaginar aquele prisioneiro gaúcho contemplando a Baía de Todos-os-Santos. Jamais saberemos exatamente o que ele pensava, e talvez seja melhor assim. Há uma parte da história que pertence aos documentos e outra que permanece entregue à imaginação de quem dela toma conhecimento. É nessa segunda parte que as crônicas gostam de acontecer.
Porque existe algo profundamente humano naquela cena: um homem privado da liberdade diante de um horizonte sem limites. É justamente aí que Bento Gonçalves e a Bahia encontram o ponto comum que os livros de geografia jamais revelariam. Ele veio do extremo Sul; a Bahia lhe ofereceu o mar. E, por algum tempo, Salvador fez parte de sua jornada.
Hoje, quando o Forte de São Marcelo aparece ao longe, cercado pelas águas tranquilas da baía, já não se veem ali apenas pedras, muralhas e arquitetura militar. Pode-se imaginar também um gaúcho olhando para o horizonte, esperando a oportunidade de partir.
Assim, uma fortaleza baiana acabou guardando, entre suas frestas, um pedaço da história do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves passou pela Bahia, mas a Bahia também passou pela história de Bento Gonçalves. E o Forte de São Marcelo ficou ali, no meio do mar, como testemunha desse encontro marcante da nossa história.
Salvador-BA, 17 de setembro de 2026.
José Joaquim de Oliveira
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