Lição Esquecida

Canudos não foi apenas uma guerra. Foi uma das maiores tragédias da história do Brasil. Ali, no sertão baiano, entre 1896 e 1897, brasileiros mataram brasileiros.

De um lado, homens simples, mulheres, idosos e crianças que, sob a liderança de Antônio Conselheiro, buscavam construir uma comunidade baseada na fé, no trabalho e na solidariedade. Do outro, soldados do Exército enviados pela jovem República, convencidos de que enfrentavam uma ameaça à ordem nacional.

O conflito nasceu da incompreensão, do preconceito e do medo. O sertão era visto pelo poder central como um território distante, quase desconhecido. Seus habitantes, abandonados durante séculos, passaram a ser tratados como inimigos da pátria, quando, na verdade, eram filhos da mesma terra.

Foram necessárias quatro expedições militares para destruir Canudos. A última delas transformou o arraial em um imenso campo de ruínas. Casas foram queimadas, famílias dizimadas e milhares de vidas foram interrompidas. Não houve vencedores. Quando um país precisa exterminar parte do seu próprio povo para afirmar sua autoridade, todos saem derrotados.

O grande escritor Euclides da Cunha, que acompanhou a campanha como correspondente, chegou ao sertão acreditando na versão oficial. Mas o que viu mudou para sempre sua compreensão do Brasil. Dessa experiência nasceu Os Sertões, obra que denunciou a distância entre o Brasil oficial e o Brasil real.

Canudos permanece como um alerta. Sempre que um povo deixa de enxergar a humanidade daqueles que pensam, vivem ou acreditam de maneira diferente, abre-se o caminho para a intolerância. E quando o diálogo cede lugar às armas, a nação fere a si mesma.

Mais de um século se passou, mas a lição continua atual: nenhuma sociedade se fortalece transformando seus próprios irmãos em inimigos. A verdadeira grandeza de um país não está na força de seus canhões, mas na capacidade de compreender, integrar e respeitar o seu próprio povo.

Em Canudos, brasileiros mataram brasileiros. Que essa frase jamais seja apenas uma lembrança histórica. Que ela permaneça como um permanente chamado à reflexão, para que nunca mais o Brasil volte a levantar armas contra os seus próprios filhos.

Salvador-BA, 29 de julho de 2026

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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