Uma amiga me enviou uma foto. Logo em seguida, escreveu: “Não é para guardar.”
Respondi que não iria guardá-la. Afinal, a confiança entre amigos também se manifesta nas pequenas promessas. Não era um contrato assinado, apenas uma palavra dada.
Mas antes que eu pudesse cumprir o combinado, ela mesma apagou a foto.
Confesso que fiquei pensando no assunto. Teria sido um voto de desconfiança? Teria ela imaginado que eu não cumpriria o que prometi?
Talvez. Mas, talvez não.
Vivemos tempos curiosos. A tecnologia nos deu o poder de enviar mensagens instantaneamente e, ao mesmo tempo, a ansiedade de querer controlar o destino delas. Muitas vezes, a pessoa não apaga porque desconfia do outro; apaga porque desconfia do mundo. Desconfia de um clique acidental, de um encaminhamento involuntário, de uma captura de tela feita por engano ou até mesmo da própria impulsividade de ter enviado algo que, segundos depois, julgou excessivo.
A verdade é que nem toda precaução é uma acusação. Nem todo cadeado significa que os vizinhos são ladrões. Nem todo guarda-chuva aberto prenuncia tempestade. Às vezes, são apenas medidas de segurança que adotamos para tranquilizar a nós mesmos.
Ainda assim, o episódio mexeu comigo e me fez refletir sobre o que é confiança. Confiar é entregar algo ao outro e acreditar que ele cuidará daquilo com responsabilidade. Mas confiar não significa abdicar completamente do controle. Somos humanos. Carregamos receios, inseguranças e, muitas vezes, influências de experiências passadas.
Por isso, concluí que talvez a pergunta mais importante não seja se houve desconfiança. A questão é outra: a amizade foi diminuída por causa daquele gesto?
Creio que não.
A confiança verdadeira não se mede por uma foto apagada antes da hora. Mede-se pelo exercício da confianca, pelas palavras guardadas em segredo, pelos momentos difíceis compartilhados e pela certeza de que, mesmo quando surgem pequenas dúvidas, a amizade continua maior do que elas.
E, no fim das contas, a foto reapareceu. Mas a reflexão ficou. Às vezes, aquilo que apagamos da tela acaba escrevendo uma bonita lição no nosso coração.
Salvador-BA, 7 de junho de 2026
José Joaquim de Oliveira
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