Com esse título não estou a me referir, necessariamente, à morte, mas à dinâmica da vida, às pessoas, hábitos, ilusões, oportunidades e ciclos que insistimos em carregar mesmo quando já não cabem mais em nossa vida.
Há partidas que doem como se levassem consigo um pedaço de nós. A casa fica mais silenciosa, a rotina se desorganiza, e o coração insiste em perguntar: “Por que tinha que ser assim?” É natural. Somos feitos de vínculos, de presenças, de afetos que criam raízes profundas. Quando algo ou alguém se vai, a sensação imediata é a de perda.
Mas o tempo — esse mestre paciente — vai, aos poucos, revelando outras camadas daquilo que chamamos de ausência. Nem tudo que se vai, realmente, é perda. Algumas partidas são libertações disfarçadas. Outras, lições que só poderiam ser aprendidas no espaço vazio deixado por aquilo que já não está lá.
Há ciclos que precisam se encerrar para que outros possam começar. Uma amizade que se distancia pode estar abrindo espaço para relações mais verdadeiras. Um trabalho que termina pode ser o empurrão necessário para um caminho mais coerente com quem nos tornamos. Até mesmo certos sofrimentos, quando passam, deixam em nós uma estranha herança: a maturidade.
Perder também é, de certo modo, ganhar. Ganha-se em discernimento, em força interior, em capacidade de recomeçar. Ganha-se, sobretudo, em profundidade. Quem nunca perdeu, dificilmente, compreenderia o valor do que permanece.
Isso não significa negar a dor. Ela existe, e deve ser acolhida com respeito. Mas é preciso evitar o engano de acreditar que toda ausência é um fracasso. Às vezes, é exatamente o contrário: é a vida reorganizando seus caminhos, podando excessos, ajustando rumos.
O que se vai nem sempre nos deixa mais pobres. Em muitos casos, nos torna mais leves. Porque há coisas que, ao partirem, levam consigo pesos que já não precisávamos carregar.
Talvez o segredo esteja em aprender a olhar para as partidas com menos desespero e mais confiança. Nem tudo que se vai nos diminui. Algumas ausências, silenciosamente, nos constroem.
E, no fim das contas, a vida não é feita apenas do que permanece — mas também do que, ao partir, nos ensina a continuar.
Salvador-BA, 17 de maio de 2026
José Joaquim de Oliveira
Leave a comment