Há pessoas que carregam espelhos; outras, pedras. As primeiras se olham quando são advertidas — ajeitam o cabelo da alma, limpam o que embaça a visão, corrigem o passo. As segundas, ao menor sinal de correção, tateiam o chão em busca de algo que possam arremessar. Não por maldade pura, mas por uma espécie de defesa instintiva: quem nunca aprendeu a se ver, logo aprende a atacar.
O velho provérbio bíblico (Provérbios 9:8) é direto como um raio: “Não repreendas o tolo, para que ele não te odeie; repreende o sábio, e ele te amará”. E, no entanto, a vida insiste em nos colocar diante desse dilema, quase todos os dias, como quem pergunta: “E agora, vais falar ou calar?”
Há quem confunda calar com franqueza, ou silêncio com covardia. Nem sempre. Às vezes, calar é sabedoria prática — é poupar sementes quando o solo é pedra. Outras vezes, falar é um gesto de amor, ainda que custe o desconforto do momento. O problema é que nem sempre sabemos diante de quem estamos: se de um coração disposto a aprender ou de um orgulho armado até os dentes.
O sábio — esse ser raro e discreto — tem uma curiosa afeição pela verdade, mesmo quando ela vem embrulhada em desconforto. Ele escuta, mastiga, digere. Às vezes até dói. Mas depois agradece. Não porque goste de ser corrigido, mas porque ama mais o crescimento do que a própria razão. O sábio sabe que não é pronto, que está, permanentemente, em obra. E quem está em obra precisa de ajuste, nível, prumo.
Já o tolo não suporta o espelho. Prefere a superfície lisa da própria opinião, onde tudo parece certo, onde nada o contraria. A repreensão, para ele, não é convite, é ataque. Não é luz, é ofensa. E, assim, perde duas vezes: perde a chance de melhorar e perde quem tentou ajudá-lo.
No fundo, a grande pergunta não é se devemos repreender o outro, mas se estamos preparados para ser repreendidos. Porque, antes de qualquer palavra que oferecemos, há uma escuta que nos define. Somos nós espelho ou pedra? Somos nós terra fértil ou caminho endurecido?
Talvez a sabedoria comece quando trocamos a pressa de corrigir pela disposição de aprender. Quando percebemos que, mais importante do que ter razão, é estar aberto à verdade. E que, no fim das contas, quem ama a correção não ama a dor — ama o crescimento que ela traz.
E então, quando a palavra vier — seja ela doce ou dura — que nos encontre menos armados e mais atentos. Porque há críticas que ferem, sim, mas há outras que salvam. E saber distinguir umas das outras é, talvez, o primeiro passo para deixar de ser pedra e, enfim, tornar-se espelho.
Salvador-BA, 23 de abril de 2026
José Joaquim de Oliveira
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