Já houve um tempo, não tão distante assim, mas já com gosto de antigamente, em que a casa não era um território cercado por senhas, agendas rígidas e notificações severas. Era um porto aberto, com porta entreaberta e café sempre pronto ou por fazer. Era o tempo das visitas sem aviso.
A campainha tocava — quando havia campainha — ou alguém batia palmas no portão, anunciando-se com uma naturalidade que hoje parece quase ousadia. Não havia constrangimento, nem a preocupação com a desordem da sala, o cabelo desalinhado ou a panela ainda no fogo ou a louça por lavar. Quem chegava trazia consigo não apenas o corpo, mas a disponibilidade: sentava-se, respirava e ficava.
As visitas não vinham cronometradas. Vinham com histórias. Falavam da vida, das pequenas novidades do bairro, das notícias que não estavam nos jornais. Às vezes, traziam um bolo simples, às vezes nada traziam e, mesmo assim, nada faltava. Porque o essencial já estava ali: a presença.
Havia uma certa liturgia nesse encontro inesperado. O dono da casa corria para colocar mais água na chaculateira, alguém buscava um tamborete ou cadeira extra, outro desarmava a rede e ajeitava a toalha da mesa grande da sala. E, entre uma xícara e outra, a tarde se alongava sem prestar atenção ao relógio. O tempo não era um inimigo a ser administrado, mas um companheiro que se deixava partilhar.
Hoje, as visitas pedem hora marcada, confirmam presença, avisam atraso. Chegam pedindo desculpa por interromper — e partem antes mesmo de se demorarem. A espontaneidade foi substituída pela conveniência, e o improviso, pela organização. Ganhamos eficiência, é verdade, mas perdemos, talvez, um pouco de alma.
Porque há algo de, profundamente, humano no inesperado. A visita sem aviso era um lembrete de que a vida não cabia em agendas. De que o outro pode e deve atravessar nossos planos, bagunçar nossa rotina, sentar-se no meio de nós, da nossa pressa e nos obrigar a viver.
Eu não sei o que pensam vocês, mas sinto falta desse tempo. Não apenas das visitas, mas da disponibilidade que as tornava possíveis. Talvez o mundo não tenha mudado tanto assim; talvez tenhamos sido nós que aprendemos a fechar portas, não as de madeira, mas as do coração.
Quem sabe um dia a campainha toque de novo, sem mensagem prévia, sem justificativa. E que a gente, em vez de estranhar, sorria. E diga, como se dizia antes:
— Entre. A casa é sua.
Perth-Western Australia, 13 de abril de 2026.
José Joaquim de Oliveira
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