Esse é um paradoxo que incomoda quem ousa observar o cotidiano das cidades. Ela está sempre cheia — cheia demais para que alguém pudesse dizer que ali faltava gente. Havia pessoas nos ônibus, espremidas entre mochilas e pensamentos; havia gente nas calçadas, desviando umas das outras como se cada corpo fosse um pequeno obstáculo; havia rostos nas janelas, nos retrovisores, nas telas dos celulares.
Ainda assim, faltava alguém.
Não alguém específico. Não era ausência de nome, nem de rosto conhecido. Era uma falta mais difusa, quase impossível de apontar com o dedo. Como quando se entra em um quarto perfeitamente arrumado e, ainda assim, se sente que algo está fora do lugar.
Na cidade, ninguém está exatamente só — e talvez seja justamente esse o problema.
Porque a solidão, quando compartilhada no campo ou numa estrada vazia, tem uma honestidade quase reconfortante. Ela se assume. Já nas cidades, ela se disfarça de movimento. Anda de elevador, espera em filas, pede café, responde “tudo bem” sem esperar resposta. É uma solidão que aprendeu a conviver com o barulho e a se esconder dentro dele.
Outro dia, no meio de uma multidão apressada, percebi algo curioso: ninguém olhava para ninguém. Não por falta de olhos, mas por excesso de pressa — ou talvez por excesso de defesa. Olhar exige um tipo de disponibilidade que a cidade desaprendeu. É preciso tempo para enxergar o outro, e o tempo, ali, é sempre escasso ou mal distribuído.
E então cada um segue, inteiro por fora e fragmentado por dentro, carregando pequenas ausências como quem carrega chaves no bolso — sem perceber que incomodam e fazem barulho.
Talvez a solidão urbana não seja a falta de companhia, mas a falta de encontro.
Porque estar cercado é diferente de estar junto. Dividir espaço não é o mesmo que dividir silêncio. E há silêncios que só existem quando duas pessoas realmente se permitem estar ali — sem pressa, sem fuga, sem a urgência de parecer ocupadas.
A cidade, com toda sua pressa, parece ter esquecido disso.
Mas, às vezes, quase por acidente, acontece: dois desconhecidos trocam um olhar mais demorado, alguém segura a porta para o outro, uma conversa improvável nasce na fila de um café. Pequenos desvios na lógica apressada do mundo.
E, por um instante breve — quase invisível —, a cidade deixa de ser um lugar cheio de gente sozinha e, finalmente, se transforma em um lugar de encontros.
Salvador-BA, 2 de abril de 2026
José Joaquim de Oliveira
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