O acaso existe?

Dizem que o acaso é esse sujeito distraído que tropeça nos dias e muda destinos sem pedir licença. Mas, no fundo, nunca acreditei muito nele.

Se o acaso existisse mesmo, eu não teria esbarrado naquela pessoa exatamente no dia em que já não acreditava em encontros. Não teria escolhido aquela rua, naquela hora, com aquele atraso bobo que me fez chegar depois do previsto. O acaso é preguiçoso demais para alinhar detalhes tão preciosos e precisos.

Talvez o que chamamos de acaso seja só a parte visível de algo maior — uma costura silenciosa entre escolhas pequenas, quase invisíveis. Um “sim” dito sem pensar, um caminho trocado por impulso, um café aceito só para não voltar para casa cedo demais. Quando percebemos, estamos diante de alguém que muda o jeito como o mundo soa.

Nenhum encontro é por acaso porque todo encontro exige preparo, mesmo que inconsciente. A gente chega quebrado, inteiro, curioso ou cansado, mas chega do jeito exato que precisava chegar. E o outro também.

O acaso gosta de levar o crédito, mas a verdade é que ele só aparece quando não queremos admitir: havia sentido antes mesmo de haver explicação.

E talvez seja por isso que o acaso nunca se defende. Ele aceita a culpa por tudo aquilo que não sabemos explicar.

Mas pense bem: quantas vezes você quase não foi? Quantas vezes ficou entre ficar e sair, entre responder ou deixar no silêncio, entre insistir ou desistir — e alguma coisa, mínima, te empurrou para o movimento? Não foi coragem. Não foi certeza. Foi uma espécie de chamado mudo, desses que não gritam, mas também não deixam a gente em paz.

Os encontros não começam no momento em que os olhos se cruzam. Eles começam antes, muito antes. Começam na falta, no incômodo, na sensação estranha de que algo ainda não aconteceu. A vida vai preparando o terreno como quem sabe que uma semente precisa de tempo para germinar.

E quando o encontro acontece, ele não vem com alarde. Não avisa que vai ficar. Às vezes, nem promete nada. Apenas chega — simples, imperfeito, real — e bagunça os móveis do nosso mundo interior. Depois disso, não dá para dizer que foi só coincidência. Coincidências não deixam marcas.

Talvez o acaso exista apenas como desculpa para o medo. Medo de admitir que escolhemos, mesmo sem perceber. Medo de aceitar que o coração também decide caminhos, mesmo quando a cabeça jura que está tudo sob controle.

No fim, o acaso é só o nome bonito que damos ao destino quando ainda não temos coragem de chamá-lo assim.

Salvador-BA, 17 de fevereiro de 2026.

José Joaquim de Oliveira

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