Dizem que somos o sal da terra, mas ninguém acorda pensando nisso ao pegar o ônibus lotado ou ao encarar a fila do mercado. O sal age em silêncio. Some na comida para que o sabor apareça. Talvez seja esse o ponto: não chamar atenção para si, mas fazer diferença, silenciosamente.
Há dias em que a gente se sente insossa. A rotina lava o gosto das coisas, a pressa dilui a coragem, e o medo de errar nos congela demais. Nesses dias, é fácil achar que não servimos para nada além de ocupar espaço. Mas o sal não perde sua razão por um descuido; ele perde quando esquece de tocar. Ficar fechado no saleiro não tempera panela nenhuma.
Ser sal é aceitar o risco de se expor. É topar ouvir quando dói, dizer quando pesa, agir quando cansa. É entrar na conversa difícil, no gesto simples, no cuidado miúdo que ninguém aplaude. Não para ser pisado, mas para ser espalhado — porque o mundo, às vezes, está sem gosto e não sabe.
E se um dia nós nos sentirmos sem sabor, talvez não seja o fim. Talvez seja só o convite para voltar à mesa.
É nesses dias que a frase ecoa como um lembrete simples e exigente: vós sois o sal da terra. O sal não chama atenção pela cor. Some na comida, dissolve-se, não posa para fotografias. Mas basta faltar para que o prato revele sua verdade sem disfarces: o insosso denuncia a ausência. O sal existe para servir — e, servindo, transforma tudo ao redor. Um grão a mais estraga; um grão a menos empobrece. A medida é ética, não estética.
Ser sal é aceitar a discrição. É chegar antes do aplauso e ficar depois que a mesa esfria. É conservar o que tende a apodrecer — valores, afetos, promessas — sem fazer discurso sobre isso. É provocar sede de justiça sem gritar slogans, acender o paladar da esperança sem apagar o gosto do real.
O sal arde quando encontra ferida. Não porque seja cruel, mas porque é honesto. Ele revela onde dói para que haja cuidado e cura. Também assim são as pessoas que não adoçam mentiras: doem no começo, mas salvam no fim.
E há ainda o risco de perder o sabor. Quando o sal vira ornamento, quando prefere o rótulo ao serviço, endurece e já não se mistura. O mundo, então, continua fervendo — e insosso.
Talvez ser sal seja isso: escolher misturar-se. Gastar-se um pouco por dia. Desaparecer para que outros apareçam. Não para dominar o prato, mas para torná-lo possível. Porque, no fundo, a terra não precisa de mais barulho. Precisa de mais sabor.
Salvador-BA, 7 de fevereiro de 2026
José Joaquim de Oliveira
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