Mottainai

Os japoneses têm uma prática baseada numa palavra curta e profunda: mottainai. Ela não se traduz por inteiro. É lamento e consciência ao mesmo tempo. É o suspiro diante do desperdício, mas também o reconhecimento silencioso de que tudo carrega um valor que não nos pertence por completo – nada deve ser tratado como se não tivesse valor.

Mottainai não se refere apenas ao pão jogado fora, à água desperdiçada ou ao objeto quebrado por descuido. Refere-se, sobretudo, à vida, ao tempo, às pessoas, aos gestos que deixamos passar como se fossem banais.

Vivemos numa cultura que descarta com facilidade. Coisas, amizades, relações, palavras, afetos. O que discorda é trocado; o que exige cuidado é abandonado; o que envelhece é considerado inútil. E, sem perceber, aplicamos essa lógica cruel do descarte também às pessoas: quando não nos servem mais, quando erram, quando deixam de corresponder às nossas expectativas.

Mottainai nos chama à reverência. Nada é insignificante. Um olhar pode salvar um dia. Um pedido de desculpas pode reconstruir anos de relacionamentos. Um gesto simples pode impedir uma ruptura definitiva. Tratar tudo como se fosse substituível é empobrecer a própria experiência do existir.

Há também um mottainai espiritual: desperdiçamos dons, vocações, oportunidades de amar e até de servir. Gastamos energia com vaidades e ressentimentos, enquanto negligenciamos o essencial. Quantas vezes tratamos o tempo como se fosse infinito, e as pessoas, como se estivessem sempre disponíveis?

Mottainai ensina, sobretudo, responsabilidade e gratidão. O mundo não é um estoque inesgotável, nem os corações alheios são descartáveis. Cada coisa recebida — um talento, uma amizade, um dia a mais de vida — traz consigo um pedido silencioso: “Cuida de mim”.

Talvez o verdadeiro desperdício não seja o que jogamos fora, mas aquilo que nunca valorizamos. E aprender mottainai seja, no fundo, reaprender a olhar: com respeito, com atenção e com consciência de que nada — absolutamente nada — deve ser tratado como se não tivesse valor.

Salvador-BA, 28 de janeiro de 2026

José Joaquim de Oliveira.

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