Vazio existencial

Houve um homem que viveu os horrores de um campo de concentração nazista e que depois se tornou o pensador associado ao conceito de “vazio existencial” e a busca pelo “sentido da vida”. Esse homem se chamava Viktor Frankl, um neurologista e psiquiatra austríaco, criador da logoterapia.
Esse psiquiatra estudou, profundamente, aquele buraco silencioso que se abre dentro de nós, sem aviso, e que às vezes somos os únicos a escutá-lo.

O universo de sofrimento que moldou o Dr. Frankl não era maior que um quarto. Um quarto comum, com paredes pintadas de um cinza pálido, uma janela para o nada de uma rua qualquer e um relógio que insistia em marcar o tempo, ao ritmo enlouquecedor do tic-tac. A pessoa que ali estava — que poderia ser eu, poderia ser você — olhava para o relógio e via mais do que o passar dos minutos: essa pessoa via o que ele não mostrava. O relógio marcava o tempo, mas não marcava o sentido.
No silêncio daquele quarto, o vazio existencial chegava com pés de vento: não como um estrondo, mas como um esvaziar lento — do riso que sumiu, da motivação que se escondeu, da meta que ficou para depois.
Ele lembrava dos dias em que havia planos, em que havia amanhã com um brilho nos olhos. Agora o amanhã parecia apenas mais um rascunho inacabado. O passado não era consolo, era ponte que ele cruzou e em que deixou pedaços de si mesmo. O futuro era uma folha de papel em branco.
Ele se pergunta: “Por que me levanto? Por qual caminho irei? Qual o sentido desse roteiro que sigo, se cada cena parece repetida, e nenhuma delas me surpreende mais?” E no silêncio da pergunta, o vazio sussurra: “Você não me preencheu ainda.”
E então ele percebe a grande revelação: o vazio não está feito para ser “preenchido” como se fosse um copo. Ele está alí para ser olhado — talvez tocado — e compreendido. Porque o vazio é sintoma, é espelho. Sintoma de que aquilo que fazíamos — ou tínhamos — não era o bastante. Espelho de que, no centro, talvez não saibamos mais quem somos ou o que queremos ser.
Naquele quarto, a pessoa fecha os olhos e escuta seu próprio coração. O tic-tac do relógio vira batida de espera. E ele entende que esse vazio que sente não é falha apenas sua: é sinal de um mundo que exige muito: velocidade, sucesso, imagem, e pouco prepara para a quietude, para a escuta, para o “sou eu aqui agora”. Sistemas, labutas, redes, metas e resultados — tudo gera muita pressão e muito ruído. E no meio do ruído, o silêncio cresce.
Então ele abre os olhos. Não sabe se vai achar a saída ou o atalho. Talvez nem precise. Talvez o primeiro passo seja permanecer: olhar para aquele quarto, para aquele relógio, para aquele vazio — e permitir que o vazio o olhe de volta. Porque só quando ele deixa de ser “inimigo” e vira “mensagem” — é que a vida começa a retomar contorno.
E para onde ele vai agora? Vai dar um passo. Um passo que talvez não mude o mundo — mas mude o modo de percebê-lo. E nesse passo, talvez o vazio perca parte de seu poder, e algo — um fio de sentido — se entrelace à rotina. Não por grandes feitos, mas por pequenas escolhas: dizer “sim” ao que, realmente, importa, e dizer“não” ao que diminui. Enfim, descobrir que, mesmo no quarto cinza, uma janela para a rua pode ser porta se eu mudar o meu olhar e encarar a vida da forma que ela ainda me resta.

Salvador-Ba, 6 de novembro de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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