Há momentos em que a vida parece uma corda esticada entre dois penhascos invisíveis. De um lado, o peso de quem fomos — memórias, fracassos, falhas, culpas, medos. Do outro, a vastidão do que desejamos ser — sonhos, resgates, pedidos de perdão, responsabilidades, ideais. Entre esses penhascos, mantemo-nos suspensos pelo único fio que, realmente, importa: a força.
Força não é apenas músculo ou orgulho. É o sopro que ainda tece esperança na tragédia árida; é levantar-se quando tudo desmorona; é continuar contra o vento, contra dúvida, contra o espelho que insiste em mostrar um rosto abatido. Força é chegar ao limiar do desespero e escolher continuar. É olhar para as próprias cicatrizes e decidir que elas apenas contam a sua história, não serão elas que definirão seu destino.
Mas, de que serve força se não houver propósito? O propósito se impõe como bússola a quem já possui força — ele dá direção ao impulso bruto, dá sentido às horas austeras. Propósito é aquilo que nos pergunta, na calma da madrugada insone: “Para quê tudo isso?” Propósito dá significado aos passos que pareciam erráticos; faz com que cada manhã valha a pena, mesmo quando o corpo pesa. Sem propósito, a força se esgota nesse bater de asas sem voo, nessa energia que se dispersa.
Eu conheci uma pessoa — ou talvez eu mesmo seja essa pessoa — cujos dias são feitos de rotina pesada: acordar cedo, labutar, cuidar de quem precisa, esquecer de mim e ir dormir exausta. Algum tempo atrás, descobri na noite uma pergunta simples, porém eficaz: “Por que continuo?” Foi aí que percebi que propósito não precisa ser algo grandioso, universal, para as manchetes — era um fio mais tênue, mais interior: sustentar amor, acender luz onde houver trevas, dar a mão, garantir que alguém se sentisse visto, assistido, amado; garantir dignidade. Esse propósito, embora modesto aos olhos do mundo, tornou-se o meu farol.
Nesse encontro, entre força e propósito, há renascimento. A força sem propósito é energia desperdiçada; o propósito sem força não passa de mera utopia. Mas juntos, são a alquimia que transforma dor em direção, sonho em jornada, vida em canção com verso onde antes havia apenas silêncio.
E mesmo nos dias em que a força parece insuficiente — quando o propósito parece distante — há algo que permanece. O simples ato de seguir acreditando: que existe um sentido, que vale a pena, que alguém, em algum lugar, se beneficia de nossa existência. Que cada gesto de coragem, por menor que seja, ainda reverbera no mundo.
Força, então, não é sobre vencer tudo, mas sobre não desistir. Propósito não é sobre ter todas as respostas, mas sobre manter uma atitude viva.
Porque quando mantemos viva a pergunta “por quê?”, mesmo quando parecemos impotentes, estamos já nos movendo rumo ao “para quê”, chave de todo e qualquer propósito.
Salvador-Ba, 10 de outubro de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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