Liberdade Urbana

São seis da tarde. A luz dourada invade as esquinas do bairro boêmio do Rio Vermelho como se tivesse pressa de contar um segredo. Os coqueiros sussurram com o vento, o mar bate longe — nem tanto para quem vive ali, acostumado ao eterno burburinho do barulho das ondas. Gente de passagem, moradores, artistas, ambulantes crianças — todos misturados na orla; se fazem visíveis, sem necessidade de comprar ingresso, sem que alguém cheque se você “vale”.

No Largo do Campo Grande, os bancos rangem sob corpos cansados da lida diária; há um homem que assobia uma canção antiga, outra moça que pinta mandalas de giz no chão da praça e um menino corre atrás de pipas proibidas. É pura energia do existir. Ali, você pode ser nada além de “alguém que respira”, sem ter de provar quão produtivo, quão importante, ou quão consumista é.

Mas essa liberdade é sempre frágil. Há placas de “proibido ficar”, “proibido pintar”, “tempo máximo de permanência”; há olhares alertas de segurança, de polícia, de quem teme que a rua vire “bagunça”. O local público, espaço de encontro, de arte, de contemplação, às vezes parece um salão de vidro: exposto, bonito, mas com os pés, desconfortavelmente, suspensos.

No Pelourinho, cada paralelepípedo guarda memória — de dores, de festas, de vozes silenciadas e de vozes que resistem. O nome lembra supliciários, pelourinhos, punição pública — marcas de uma história que o tempo se recusa a esquecer. E, ainda hoje, o uso desse espaço público é disputado. Turistas, artistas de rua, rezadeiras, fotógrafos, grafiteiros, todos desejam estar ali, são parte de uma coreografia urbana que não cabe em nenhum palco.

Quem decide a que horas é permitido estar ali na praça? Quem determina que canto pode ser ocupado para música ou para prece? Quem silencia o pregador da calçada com megafone, ou afasta quem canta, dança, desenha?

Liberdade, no espaço público, não é só “liberdade de ir e vir”. É também liberdade de ser visto e aceito, sem ter de produzir algo. É poder sentar no banco, olhar para o céu, molhar os pés na água salgada do Porto da Barra, assistir ao pôr do sol sem pagar, contemplar sem pressa; é poder ocupar a praça com o corpo inteiro: com alegria, com desgosto, com silêncio.

Mas a cidade — este organismo cheio de contradições — nem sempre permite isso. O urbano muitas vezes é moldado pelo consumo: cafés bonitos, galerias caras, comércio que exige dinheiro. Espaços públicos viram vitrines. Ou territórios de espetáculo para quem paga — que observa quem dança nas pontas dos pés ou que se arrisca no canto da rua.

Quando o espaço público se torna privilégio de quem pode pagar, consumir, de quem “tem visibilidade”, ou de quem se “encaixa” no padrão, a liberdade se encolhe. A praça deixa de ser lugar de existir e vira exposição de poder social, econômico, com a consequente decretação do ocaso da liberdade urbana.

Salvador-Ba, 29 de setembro de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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