Há um instante mágico entre o apagar das luzes do quarto e o primeiro suspiro do sono: é aí que Hipnos – o deus do sono na Mitologia Grega – entra em ação e os sonhos começam a desfiar fios invisíveis, costurando uma cortina tênue entre o real e o desejado. Nessa penumbra, os desejos antigos ressurgem ou se renovam — frustrações, arrependimentos, medos, memórias, lembranças — tudo o mais que ainda não ousamos dizer ou admitir, se revela.
Quando acordamos, trazemos conosco fragmentos desses mundos: um amor impossível, uma cor intensa, uma paisagem emblemática, uma conversa não dita. São pistas que, embora pareçam dissolver-se na luz do dia, já ganharam vida dentro de nós, queiramos ou não. E é desse sonho interno que brotam nossos desejos — aquelas vontades que tremem sob a pele, insistem em explodir o peito, mandam sinais dolorosos e, ao mesmo tempo, sutis: um querer ser diferente, um querer partir, um querer aquele ser que se tornou impossível, em que pese existir.
Mas há sonhos de outro tipo — aqueles que vivemos despertos: ambições, paixões, utopias. São eles que desenham mapas invisíveis do futuro: decidir uma profissão, escolher uma cidade, optar por uma pessoa, dirigir os passos por uma estrada ou por outra. São sonhos carregados de escolhas, e escolhas que já contêm os sonhos em si.
É curioso perceber como ambos se entrelaçam: o sonho noturno, efêmero, mas poderoso; o sonho de viver, que exige coragem, disciplina e sacrifício. Um ensina a escutar o invisível, o outro força o invisível a virar matéria, a se tornar gesto, ato, vida concreta.
Nem todo sonho se realiza. Alguns se desfazem como névoa ao calor da realidade. Outros exigem que abandonemos algo para ganhar outro, que deixemos ir um velho sonho para permitir que nasça um novo. Há sonhos que adoecem o coração, se nos apegarmos demais ao impossível, se não soubermos dosar o desejo. E há escolhas dolorosas: escolher o sonho que cabe, que sustenta, que honra não só “o que eu quero”, mas também “o que posso” e o “quem eu sou”.
Assim, nossa realidade — esse terreno em que vivemos — é talhada por esses fios de sonhos: alguns já prontos, outros apenas esboçados. Nossos desejos, quando são escutados, atentamente, anunciam caminhos. E nossas escolhas — cada passo, cada renúncia, cada risco — são as linhas que transformam sonhos em destino.
Talvez o sonho mais importante seja esse: que a gente aprenda a conviver com a dualidade — o sonho que inspira, o desejo que move, a escolha que concretiza. Que o medo de falhar não apague a luz dos nossos desejos. Que a lucidez não nos roube a coragem de sonhar. E que, em cada escolha, haja um pouco daqueles sonhos que nos tornaram quem somos na atualidade.
Salvador-Ba, 24 de setembro de 2015.
José Joaquim de Oliveira
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