No centro do nosso viver

Há um círculo invisível que traçamos ao nosso redor — nele estão nossos sonhos, nossos planos, nossas escolhas mais íntimas. Dentro dele, guardamos as paixões, os medos, os desejos de reconhecimento, bens, conforto. Às vezes, quase sempre, permitimos que esse círculo seja ocupado por tudo — menos pela presença de Deus.

Vivemos numa sociedade que nos convida a colocar como prioridade o que é efêmero: posses, posição, sucesso, prazer. Medimos nosso valor pelo que temos, pelo que mostramos, pela imagem que projetamos. E nessa pressa, esquecemos do essencial: a fonte de toda paz e sentido que nos sustenta quando tudo parece ruir.

Quando Deus está no centro, nossas escolhas ganham outro peso. Ele não é mais um acessório, uma opção de domingo, uma crença reservada apenas para os momentos de crise. Ele se torna parâmetro, referência, bússola. Ele nos faz perguntar antes de decidir: “Isto me aproxima Dele?”; “Já considerei o que Ele espera de mim?”;
“Estou me sacrificando, verdadeiramente, pelo que vale eternamente?”

Colocar Deus no centro significa, por exemplo, recusar o sucesso que exige renunciar ao caráter; recusar o conforto que exige silêncio diante da injustiça; recusar a paz comprada às custas do sofrimento do irmão. Significa também saber amar com brandura, indulgência, tolerância, humildade e compaixão — como Ele nos ama. E mesmo que falhemos — como falhamos muitas vezes — esse centro nos recoloca, nos reconduz à verdade de quem somos: criatura amada, chamada para amar como Ele nos ama.

A riqueza maior não está no que acumulamos — bens, status, posses — mas no que podemos partilhar, no que construímos com os olhos voltados para o eterno: nas relações sinceras, no serviço desinteressado, no perdão liberto, na fé tranquila que segura quando tudo o mais nos falta.

Talvez, amanhã, ao acordar, possamos pausar um pouco refletir. Talvez escolher menos tempo para afazeres sem sentido, mais tempo para oração e para o servico ao próximo. Talvez dizer “não” ao convite que me afasta daquilo que Deus quer para mim. Talvez escolher amar melhor, doar com alegria, oferecer minha vida em pequenos gestos de servir com fidelidade.

Se Deus for o centro, todas as outras coisas — até aquelas minúsculas — se alinham melhor: deixam de ser fins e passam a ser meios. E aí, a vida simples se torna abundante; o chamado ordinário se torna santificação; o comum se reveste da Graça do Senhor.

Que possamos, cada dia, desenhar esse círculo com aquilo que nunca envelhece, que nunca apodrece, que nunca nos decepciona: Deus. Ele é a riqueza verdadeira, e ao colocá-lo no centro, encontramos sentido, paz e transcendência — tesouros que nem o tempo nem a vaidade podem roubar.

Salvador-Ba, 20 de setembro de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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