Quantas vezes, nós nos pegamos, logo ao acordar, diante do espelho? Outro dia, outro rosto, pensamos nós — aquele rosto que já vimos antes, tão conhecido quanto o sofá da sala. E ali começamos uma rotina silenciosa: ajeitar o cabelo, fazer a barba, puxar o colarinho, ajustar o nó da gravata, inalar aquele sentimento sutil de estar — enfim — apresentável.
Mas lá no fundo ressoa uma voz discreta, antiga como o anúncio de um comercial: vós quereis ser vistos? É uma pergunta que grande parte da nossa geração responde num piscar de olhos e com um dedo em um botão, entregando curtidas em troca de narcisismo. Salomão já dizia: “Vaidade de vaidades!
Uma frase que parece brotar direta dos algoritmos que repetem padrões, como Vinícius de Moraes alertando que “o samba é bonito mas tem que ter conteúdo” — aqui, o conteúdo, às vezes, se resume a um número verde piscando.
A vida nos lembra, a todo momento, a futilifade e transitoriedade das coisas, de que não há perenidade nas conquistas e bens terrenos.
Há um quadro, atribuído a Harmen Steenwijck, pintor holandes especializado em naturezas mortas, que traz um crânio brilhando diante de um instrumento musical e um cálice de vinho pomposo: é a morte sorrindo para o otimismo da fama e do prazer.
Quase podia ouvir o binóculo das redes socais escondido, bisbilhotando aquele comentário.
O filósofo Matias Aires, o primeiro filósofo brasileiro, escreveu, no século XVIII, que a vaidade dos homens se define pelo que os outros veem. Na obra “Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens”, ele enumera as formas dessa sombra — a vaidade da glória, da origem e da beleza, enquanto imagem pública.
É o brilho hipócrita das redes sociais, dos sorrisos ensaiados em fotos instantâneas, da popularidade que se esvai ao som de uma notificação falsa.
Percebe-se isso nos olhares alheios: um amigo que pergunta se assistimos à série que todo mundo comenta— mas ele mesmo nunca viu; uma prima ocupada postando refeições pouco calóricas, vendendo a ideia de um corpo, esteticamente, impecável; colegas que contam histórias infladas para caber no tempo que os outros se interessam. Todos presos nesse loop: produzir imagem, renovar o efêmero, repetir até que os olhos se cansem — e ainda assim continuem vidrados. É o retrato bíblico de um movimento sem fim: gerações vão e vêm, o vento faz seu trajeto, os rios correm para o mar — e nada se renova, de fato, debaixo do Sol.
Contudo, essa crônica se resume a isso: buscar nas fissuras uma fresta de sentido. Hoje, se fizermos silêncio, veremos que nem toda vaidade é mentira. Abrir um livro que ninguém verá, plantar uma muda para desfrute de outra geração, sorrir com cuidado para quem está nas proximidades — tudo isso também é vaidade, sim, mas sem medo de não receber aplausos. Então, no embalo do “tudo é vaidade”, vale cultivar pequenas vaidades que atravessam o tempo — como as árvores, que não nascem para o Instagram, mas para dar frutos e confortáveis sombras.
Porque a última vaidade, ao contrário das selfies e cobiças, é saber que o nosso eco mais forte está dentro da gente, longe do sol inclemente da exposição. Se o mundo for um palco de aparências, o bastidor ainda é um altar de silêncio e reflexão. E, no silêncio, refletimos que somos humanos — com vaidades inevitáveis, mas carregando também essas vaidades de ternura, de cuidado e resistência.
Salvador, 02 de agosto de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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