Em uma tarde quente sobre os campos da Judeia, Jesus se afasta até chegar a um “certo lugar”. Ali, ajoelhou‑se. Os discípulos o viram com os ombros relaxados, os olhos fechados com graça, e — nos primeiros instantes, apenas seu respirar — parecia que o Pai estendia o braço invisível para acolhê‑lo. Quando o Mestre terminou, nenhum discípulo falou. Foi como se o silêncio tivesse revelado tudo o que eles ainda não conheciam.
Senhor — disse um deles — “ensina‑nos a orar, como João ensinou aos discípulos dele”.
Os discípulos já haviam aprendido muitas coisas — lições sobre o cuidado com os mais necessitados, parábolas que rasgavam a dureza da lei, gestos de amor curador. Mas a oração que Jesus ensinou abriu um novo mundo. Não era recitação decorada: era um encontro íntimo. Eles perceberam que entre as palavras de Jesus e o Pai havia mais do que obediência; havia comunhão.
Eles viram que Jesus tinha uma vida de oração — não sistemática e ritualizada apenas, mas cheia de ardor, lucidez e humildade — e ansiaram entrar nesse contexto.
Pedro observava de longe, alma inquieta, era o mais despreparado, mas sincero. Ele se aproxima, quase sem perceber, e se ajoelha ao lado do Mestre. Seus joelhos dobrados sobre o chão duro. Ele escuta a boca de Jesus abrir em “Abbá”— não era ainda o“Pai Nosso, mas um “paizinho” em Aramaico que alça os corações ao Céu. Ninguém explicou o “Abbá” naquela hora, mas todos souberam que era o jeito de Jesus chamar o Pai — com intimidade, confiança e reverência.
E é nessa paisagem, mais ainda que em Jerusalém ou em Emaús, que o discípulo define seu dilema: deseja orar como Jesus — com total dependência, coragem e leveza. Mas, por ora, não sabe como. O silêncio do Mestre o convida, sem pressa: “Senhor, ensina‑nos a orar”.
O Mestre então fala: “Quando orardes…” e segue, oferecendo o modelo que todos nós conhecemos que a o Oração do Pai Nosso: uma ficha de identidade do Discípulo que confessa sua humildade, proclama a santidade de Deus, reconhece sua dominação (o Reino de Deus), confwssa que depende do pão para viver, sabe que é preciso perdoar e teme a tentação.
O dia termina sob os primeiros astros da noite, quando os discípulos, finalmente, ousam se aproximar e perguntar: “Como fazemos para chamar Esse Pai?” Então Jesus diz: a oração não se resume a repetir. É diálogo, abandono, insistência. “Pedi”, Ele ensina, “e lhes será dado; buscai, e achareis; batei, e vos será aberto.
Jesus oferece não apenas palavras, mas a experiência do Espírito — aquele que fortalece, desperta o desejo e capacita para orar no íntimo do coração.
Termino esta reflexão dizendo que ela não é apenas sobre oração; é sobre um passo maior: o desejo de aprender a viver da intimidade divina, sob a condução de um Mestre que orou como homem e sacerdote, que se sabe ser amado e confiável, e que agora ensina a todos nós, seus amados discípulos.
Salvador-Ba, 02 de agosto de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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