Alegria

Nem sempre a alegria vem vestida de festa: no mais das vezes, chega disfarçada no chiado da chaculateira aquecendo a água do café a ser coado, na luz tímida que se infiltra pela fresta da janela ao alvorecer, no ronronar do gato Mimoso a pedir carinho. É nela que, sem alarde, a alma se espreguiça e se recorda de que viver é, também, um hino suave à existência simples.

Alegria não é aquela felicidade explosiva dos aplausos fugazes. Alegria é aquela miúda e profunda: uma xícara quente nas mãos, o sabor da broa de milho que anima, o cheiro sutil de algo florido no quintal. É ver o dia surgir em tons de lilás, laranja, azul — como orquestra sem maestro, mas cheia de harmonia.

Na Psicologia, alegria é uma emoção momentânea e prazerosa, disparada por algo percebido como positivo.

Para Aristóteles, a alegria pode fazer parte da Eudaimonia, aquele estado emocional de realização plena que se alcança através da excelência e da prática da virtude em consonância com a razão, alcançado por meio do crescimento espiritual e da realização pessoal.

Baruch Espinosa via a alegria como o “afeto” que aumenta nosso potencial de agir e pensar, oposição à tristeza que a diminui.

Em geral, muitas correntes filosóficas reconhecem a alegria como elemento valioso para uma vida mais afirmativa e criativa.

Na vida cotidiana, a alegria se esconde em gestos sutis: é o sorriso espontâneo ao encontrar um amigo, é o cheiro do bolo de milho recém-assado para a ceia, é o novo amanhecer que desperta um brilho nos olhos, é o canto da passarada saudando a aurora que desponta depois de uma noite de muita chuva.

É na simplicidade de estender a mão a quem precisa, no abraço que reconstrói um coração despedaçado, na conversa ao pé de uma mesa acolhedora,onde risos desafogam magoas silenciosas e criam sossegos.

Não exige palco, nem celebração grandiosa –
sua grandeza está na intimidade dos instantes:
no vento leve que balança as folhas, na Lua que invade a sala da casa, na Ave- Maria ao entardecer, no olhar do filho que descobre o mundo em cada passo.

E a alegria insiste em se fazer presente onde há entrega: quando ofertamos sem esperar retorno,
quando valorizamos cada passo do percurso, quando respiramos a vida com gratidão pelas pequenas conquistas.

Ela é efêmera, sim – mas renasce em cada pôr do sol, em cada risada compartilhada, em cada novo recomeço.

Encerro esta crônica dizendo que a alegria é arte de existir: é o poema não escrito da gentileza e da gratidao, é a música suave que nos eleva a Deus e faz florir o coração mesmo nas horas mais amargas da nossa existência.

Salvador-Ba, 27 de julho de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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