Se existe arte sutil, ela mora na leveza de um instante. No ar que balança suavemente entre um suspiro e outro, a vida se revela nas minúcias: o riso solto entre amigos, a brisa que refresca o corpo exausto, o sol que desliza sem pressa entre folhas de árvores. É aí que encontramos o alívio invisível, o espaço entre o caos e o silêncio, onde tudo parece flutuar.
A leveza que quero narrar hoje é uma espécie de sombra suave que toca os gestos mais simples — a tênue brisa que reconforta uma tarde quente, o riso contido entre amigos, o deslizar sereno de uma página virada sem pressa. É sobre esse tipo de leveza — despretensiosa, cotidiana, sutil — que segue a tradição da crônica brasileira, aproximando o leitor por meio da simplicidade e da poesia.
Leveza não é ausência de peso, mas escolha de flutuar. É permitir que o coração dance ao ritmo do inesperado, sem pendurar-se nas antigas cadeiras do passado. É correr na chuva, sem medo de molhar os pensamentos; é olhar as nuvens e perceber que podemos mudar de forma, é observar o vento espalhar as pétalas do ipê rosa — delicadas, saltitantes — como se dançassem ao nosso redor. Por um segundo, certamente, o sufoco da rotina dói menos. Em segundos, somos levados a respirar fundo, fechar os olhos e abrir espaço para que aquele instante de sonho, como se o tempo fosse apenas uma cadência leve.
Leveza é recomeçar com o frescor de uma folha nova, é rir alto e deixar o som escapar. É um passo de dança dentro de casa, é uma canção que se canta sozinho no chuveiro. Leveza é perceber que o corpo e o espírito podem cantar em harmonia, mesmo quando tudo insiste em querer pesar.
Mas cuidado: leveza não é frívola. Ela exige coragem. Coragem para soltar o nó antigo, para aceitar que há beleza em flutuar — mesmo que, às vezes, esmagemos um pouco o chão, mesmo que ainda tenhamos pedras no bolso a nos puxar para baixo. A verdadeira leveza não nega o peso da vida; ela o acolhe, transforma, e permite que a alma se desaperte.
No fim, a leveza se revela num gesto simples: um abraço sem regras, um sorriso genuíno, uma entrega breve ao presente. Ela nos ensina que, se carregarmos apenas aquilo que nos faz crescer, o resto, por mais intenso que seja, pode se dispersar.
E, então, nos tornamos leves. Não porque não sentimos desaforo ou dor — mas porque escolhemos suavizar o trajeto. O mundo continua girando, o tempo correndo e, mesmo assim, podemos dançar sobre ele, leves como pétalas, certos de que a vida não precisa ser matéria bruta. Ao contrário, pode ser poesia que cura.
Salvador-Ba, 26 de julho de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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