Tolerância

Entre reflexões, metáforas e provocações, arrisco-me a tecer a ideia de que tolerar é, acima de tudo, um exercício de humanidade.

Imagine que nossas diferenças são fios de várias cores entrelaçados numa imensa tapeçaria. Se insistirmos em alinhar tudo com a mesma cor, que tapete estariamos a produzir? Tolerância, então, é a arte de aceitar o nó, o nó que faz a trama ser firme e única. É suportar o outro sem necessariamente concordar, e reconhecer que o respeito não exige opinião compartilhada.
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A tolerância não se resume a um gesto passivo de aceitação, mas existe no campo ativo do diálogo maduro e respeitoso. É uma virtude que floresce quando estamos dispostos a ouvir a falha, o erro — até a própria tolice humana — e a responder com compaixão, como diria Voltaire, ao lembrar que “somos todos cheios de fraquezas e de erros; por isso perdoemo‑nos, reciprocamente, as nossas tolices”. 

Ora, mas até onde vai o tolerar sem nos perdermos?

A tolerância ilimitada leva a anulação da própria tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes… os tolerantes serão aniquilados. 

Portanto, há momentos em que a tolerância exige limites — não pelo viés da censura, mas para proteger o espaço comum do convívio racional.

No cadeirão da exposição social, o cotidiano convoca a todos ao exercício tolerância .

Pense no bairro, na sala de aula, no grupo de WhatSapp, ou no almoço familiar. Tolerar não é ignorar ou engolir a provocação, é reconhecer o desconforto, e ainda assim conviver. Escolas que educam para a diversidade ajudam a plantar esse valor desde cedo.

O diálogo é a tábua de salvação quando a intolerância bate à porta.

Por outro lado, há nos dias de hoje a intolerância digital, aquela que impõe ideias que isolam, radicalizam e criam distorções. Romper essas barreiras exige tolerância — senso crítico e muita sabedoria.

Tolerar o intolerante é um excercicio de muita grandeza.

Quando um vizinho nos aborda com discurso agressivo, seja ideológico ou pessoal, toleramos por educação, ou enfrentamos o discurso intolerante com argumentos? Enquanto for possível, devemos confrontar essas ideias com racionalidade. Mas se a intolerância se manifestar de forma violenta ou no ataque à razão, então tolerar não cabe mais — é preciso agir em defesa do diálogo e da convivência.

É uma balança fina de precisão: permitir a voz do intolerente, mas não aceitar o golpe da imposição.

O gesto final: tolerância como elegância.

No fim, ser tolerante é cultivar uma elegância interior. É reconhecer que todas as pessoas carregam falhas, fragilidades, e que o outro também tem direito ao seu espaço — até nas falhas. Essa tolerância necessitada exige empatia: a capacidade de sentir o lugar do outro, sem perder nossos valores.

Ser tolerante não é ser fraco; pelo contrário, é ter força para conter a agressão verbal com diálogo e argumentos racionais — ou, se necessário, quando nada funcionar, com limites firmes.

Eu concluiria dizendo que a atolerância não é condescendência — é convivência inteligente. O mundo exige convivência entre diferentes. Ao cultivar o respeito por quem não pensa como nós, mesmo sem concordar, alimentamos uma teia viva de civilização.

É isso — o silêncio que protege o espaço do outro; o impulso de dialogar quando se discorda; o limite quando a injustiça ameaça as regras do jogo — isso é tolerância. Um gesto silencioso, mas político, um exercício humano que se renova a cada encontro.

Salvador-BA, 24 de julho de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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José Joaquim de Oliveira

Engenheiro elétrico aposentado, com carreira em telecomunicações no Brasil e exterior. Escreve sobre memória, fé e vida cotidiana. Saiba mais →


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