A vida é assim

A vida tem dessas encruzilhadas em que o caminho se resume a uma escolha simples, embora nada fácil: ou você senta e lamenta, ou você se levanta e enfrenta.

Sentar é humano. Às vezes, o cansaço aperta, a dor pesa, o coração se encolhe, e tudo que a gente quer é parar um pouco, fechar os olhos e deixar o tempo passar. É o momento da lágrima discreta, do silêncio que grita, da vontade de largar tudo. Quem nunca se sentiu assim? Sentar é compreensível — lamentar também. Mas o risco é ficar ali por tempo demais, criando raízes no desânimo.

Por outro lado, levantar exige coragem. Enfrentar a vida, os medos, os tombos, as perdas, as frustrações. Levantar é ato de rebeldia contra a derrota, é a fé em ação, mesmo quando tudo ao redor diz que não vale mais a pena. É olhar para o espelho e dizer: “Eu ainda estou vivo”.

Vale salientar que enfrentar não é sinônimo de vencer sempre. Às vezes, enfrentar é só continuar — com passos curtos, mas firmes. É enxugar as lágrimas e seguir com elas ainda queimando nos olhos. É aprender a dar a volta por cima, mesmo sem ter forças nas pernas.

A vida não nos poupa. Ela ensina com dureza, testa nossa fé, espreme a alma. Mas também premia quem insiste. Quem decide não se definir pelas quedas, mas pelas tentativas de levantar. Quem entende que cada amanhecer é uma nova chance de tentar e não de esquecer os problemas, mas de enfrentá-los com outra postura.

No fim das contas, a diferença entre se perder e se reencontrar está nesse ponto decisivo: ou você senta e lamenta, ou se levanta e enfrenta. A escolha é diária, pessoal e silenciosa. Mas ela molda tudo o que vem depois.

Você se senta. O mundo continua. Lá fora, o sol brilha ou a tempestade cai. Mas ali, parado, o tempo parece dilatar enquanto os “e se’s” se acotovelam na mente: “e se eu tivesse…”, “e se não fosse…”. O lamento vira hábito, e o peso das escolhas que não fizemos se torna mais pesado do que os passos que poderíamos ter dado.

Ou então, você se levanta.

Levantar é um gesto pequeno, mas que carrega toda a grandeza possível: significa que, apesar da dor, da dúvida ou do medo, ainda há combustível para acender a vida. É assumir que, sim, algo está fora do seu controle — mas que sua atitude interior sempre será sua escolha. Essa ideia central na Logoterapia de Viktor Frankl, nos lembra que a liberdade última nunca nos é tirada: podemos escolher a forma como enfrentamos os reveses, mesmo os mais drásticos

Levantar é ver no sofrimento não apenas um muro intransponível, mas um eco que cobra sentido. Aqueles que encontraram um propósito — por amor, trabalho, resiliência — mantiveram a própria dignidade mesmo nos campos de concentração; viveram porque acreditavam em um amanhã com sentido, mesmo quando tudo ao redor desmoronava.
Então, há duas decisões diante da encruzilhada da vida: sentar e ver a vida passar ou levantar e conduzir seus passos, como quem assume a batuta do próprio destino — ser o maestro de si mesmo, mesmo quando o ensaio desafina e as notas tremem .

Sentar é uma interpretação: foca no que ficou para trás, mirando o horizonte como quem espera a confirmação do fracasso. Levantar é outra narrativa: reescreve o tempo presente com ação, com propósito. Desenvolve resiliência, esse músculo que cresce dia após dia nos pequenos atos de coragem, nas decisões de amar, trabalhar, reconstruir.

No fundo, a vida é essa sucessão de escolhas. Cada tropeço traz uma lição; cada gesto de enfrentar, mesmo que duro, refina o nosso caráter. Como disse Nietzsche, ecoado por Frankl: “Quem tem por que viver suporta quase qualquer como.”
Então, que você permita-se levantar. Levante-se para olhar o dia ainda cinzento com outros olhos. Levante-se para converter o que dói em aprendizado, o que trava em impulso, o que te limita em motivo para continuar. Porque a vida, de fato, é assim — não entrega conforto garantido, mas oferece a chance de ser vivida com sentido.

Salvador-Ba, 18 de julho de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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