Entre Ser e Ter

Na infância, a gente é. Simplesmente é. É curioso, é sonhador, é valente, é inteiro no que sente. Um carrinho de plástico pode virar foguete. Um galho seco pode ser espada. E um abraço vale mais que qualquer presente.

Mas aí o tempo passa e nos ensinam — ou impõem — que é preciso ter. Ter brinquedos caros, ter boas notas, ter um futuro promissor, ter sucesso, ter coisas. Ter. Ter. Ter. E, nesse caminho apressado pelo ter, muitas vezes esquecemos o ser.

Ser gentil, ser leal, ser honesto, ser presente, ser livre. Ser feliz, inclusive. Porque a felicidade mora mais no ser do que no ter. A casa pode ser pequena, mas se for cheia de afeto, vira palácio. O carro pode ser velho, mas se te leva para os encontros certos, é carruagem. E o tempo… ah, o tempo! Esse a gente não pode ter, só ser com ele.

Conheci pessoas que tinham tudo, menos paz. E outras que quase nada tinham, mas riam com os olhos. Aprendi que ter pode até facilitar, mas ser é o que sustenta.

No fim das contas, ser é o que levamos. O que deixamos. O que somos quando ninguém está olhando. O resto… passa.
Enferruja. Esquece.

Entre ser e ter, eu fico com o que me faz dormir tranquilo e acordar em paz.

Nos dias atuais, vivemos numa corda bamba estendida entre dois abismos: o do “ser” e o do “ter”. Um dilema antigo, mas que nunca saiu de moda. Desde os tempos em que o homem riscava pedras nas cavernas até os dias de hoje, em que risca o cartão de crédito, essa tensão nos acompanha.

O “ter” nos seduz com vitrines brilhantes, com carros reluzentes, com a promessa de felicidade embalada em prestações suaves. Ter uma casa maior, um celular de última geração, roupas de grife, títulos, status, poder. Ter é concreto, é palpável, é visível, é colecionável. Mas é também fugaz. Basta um tropeço, uma crise econômica, uma doença ou uma reviravolta na vida, e tudo o que se tem pode evaporar.

Já o “ser” mora no silêncio. Não faz barulho, não aparece no extrato bancário, não vira manchete. Ser é paciência, é honestidade, é afeto. É o que se constrói por dentro, dia após dia, no cuidado com o outro, no respeito por si mesmo, na capacidade de se emocionar com um pôr do sol ou com o sorriso de uma criança.

O mundo insiste em nos convencer de que “ter” é mais importante. Mas basta amadurecermos um pouco, ou atravessarmos uma grande perda, para entender que o que fica mesmo é o que somos. Não é o relógio no pulso, mas o tempo que dedicamos a quem amamos. Não é o saldo na conta, mas os momentos que contam.

Entre ser e ter, talvez o segredo seja equilibrar. Ter o suficiente para viver com dignidade. Ser o bastante para viver com verdade.

Porque, no fim das contas, tudo o que temos pode mudar. Mas o que somos, isso ninguém pode tirar..

Salvador-Ba, 17 de julho de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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