O homem é o lobo do homem

Sem regras, somos todos predadores uns dos outros.
Quando a civilização rompe a coleira na selva de concreto e aço,
mesmo que a aurora desperte radiante e bela, a cidade é cinza. Em cada esquina, em cada rosto com pressa, ansioso, tenso, a barbárie se insinua: um sorriso cínico no trânsito, um empurrão na fila, a forçação de barra para ser atendido primeiro. Sem saber, repetimos um ritual ancestral. Somos lobos.

Plautus, há mais de dois mil anos, já dizia:

O Homem, ao desconhecer o outro, torna-se o lobo desse outro.
.
Séculos depois, Thomas Hobbes em “Leviatã”, afirma que sem o Estado, sem leis, caber-nos-ia o reinado da selva humana:
um “estado de natureza” onde vigora a “guerra de todos contra todos”.

E hoje, como estamos?
O escárnio urbano revela: somos lobo não só para estranhos, mas também para quem nos toca o ombro no escritório, para o parente que liga pedindo ajuda. A ambição, o egoísmo e o medo — instintos primitivos — brotam sob a calçada de concreto, quase sem percebermos. Freud, em “O mal-estar na civilização”, reforça essa ideia: “homo homini lupus est”, de Plautus, traduz à perfeição, toda a agressividade que carregamos dentro de nós.

Mas sejamos honestos: nem tudo são uivos na selva. A mesma humanidade que ruge também acolhe. Sabedoria, compaixão, solidariedade — traços que nos elevam acima do instinto. Hobbes reconhece: em sociedade, somos quase divinos uns aos outros. A paz existe e por que nos agredimos, mutuamente? Será que ainda temos medo um do outro? Em sendo assim, a lei e o contrato social precisam impor limites ao nosso lobo interior.

E é aí que mora o grande paradoxo social: duros demais, sufocamos com a ordem; brandos demais, retornamos à selvageria. A crônica de cada dia é esse caminhar no fio da navalha, entre o homem-lobo e o homem-social.

No fim das contas, a frase de Plautus resgatada por Hobbes não é um decreto maligno, mas um alerta. É o lembrete de que o lobo, feroz e selvagem que habita em nós precisa ser contido. E que, por mais que circundemos a civilização com protocolos, leis, educação e empatia, é o pacto coletivo — essa tênue escolha diária — que nos impede de nos tornarmos o lobo que devora o próximo.

Nos dias de hoje, ao estender a mão em vez de empurrar, reconhecemos nosso melhor instinto. Porque, mesmo sabendo que podemos ser lobos, podemos optar por ser humanos.

Salvador-Ba, 10 de julho de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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