Dois grandes filósofos pré-socráticos –
Demócrito e Leucipo – e em um contexto um pouco diferente, Blaise Pascal e Baruch Espinosa, abordaram, com grande profundidade, a questão da infinitude das pequenas coisas.
Não é à toa que o senso comum das pessoas apregoa que é no quase nada que, às vezes, reside o tudo. Um café coado no silêncio da manhã, o barulho da colher tocando a borda da xícara, o cheiro de pão na torradeira, o raio de sol que se espreguiça pela fresta da janela, há uma espécie de eternidade que mora nessas miudezas — discretas, constantes, singelas, mas sempre ali.
Vivemos à espera de grandes acontecimentos, de marcos espetaculares, de viradas de página. Mas a vida, teimosa, prefere escrever sua poesia nos rodapés, nas entrelinhas. O toque de uma mão, o riso de um neto, a retomada inesperada das interlocuções com uma pessoa querida, o céu alaranjado de fim de tarde que insiste em nos surpreender como se fosse a primeira vez, tudo isso pode trazer significados que podem operar grandes transformações.
Há quem passe correndo, com pressa de chegar a algum lugar que talvez nem exista. E há quem pare — mesmo que por um segundo — para sentir o frescor do vento no rosto, ouvir o farfalhar das folhas, perceber a dança das formigas. Nesses instantes, o tempo se curva. O momento, minúsculo, se agiganta.
Talvez a infinitude esteja justamente aí: nas coisas que não fazemos questão de guardar, mas que nos guardam. Elas nos ancoram; nos lembram de quem somos quando o mundo parece demais.
Sim, há algo imenso no cheiro de roupa limpa, no gosto de manga madura, no som da chuva fina batendo no telhado. Essas pequenas coisas, somadas, compõem uma eternidade particular — não medida em minutos, mas em significados.
E quando, um dia, olharmos para trás, talvez percebamos que os grandes momentos eram feitos disso: um somatório de pequenas coisas que, juntas, fizeram a vida ser o que foi.
Porque a infinitude, afinal, se disfarça de coisas que julgamos pequenas demais
para conter qualquer eternidade.
Mas é, exatamente, ali, no breve, no pequeno
que o eterno faz, para o nosso gáudio, a sua morada.
Salvador-Ba, 30 de junho de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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