Às vezes, a vida escorre em pequenos gestos. É no café que esfria na xícara enquanto o pensamento vagueia. No ônibus que passa ligeiro e deixa alguém correndo na calçada. Na vizinha que varre a calçada todos os dias no mesmo horário, como quem busca varrer também as mágoas.
O cotidiano é feito desses fragmentos miúdos — quase invisíveis — que, quando costurados com atenção, revelam o bordado da existência. É o bom dia trocado com o porteiro, o pão quente na padaria da esquina, a criança que insiste em pular todas as calçadas com um pé só.
Ninguém fala muito sobre essas coisas. Elas não viram manchetes, nem rendem discursos inflamados. Mas é nelas que repousa uma parte essencial da nossa humanidade. Cada fragmento desses carrega uma memória, um afeto, uma pontada de poesia.
Ainda há pouco vi, por exemplo, um senhor regando suas plantas com uma delicadeza de quem conversa com elas pela última vez. Não era pressa. Era quase prece. Vi também um casal de idosos dividindo um guarda-chuva estreito demais — e rindo da bagunça da chuva.
São essas cenas que me compõem. Não são grandes acontecimentos. São pequenos milagres.
E talvez seja, exatamente, isso: a beleza está naquilo que se repete, mas nunca do mesmo jeito. O cotidiano é um mosaico de instantes breves que, quando notados, nos lembram de que estamos vivos.
Acordo muito cedo, antes do sol nascer. Ainda escuro, o gorjeio tênue dos pássaros contrasta com o motor silencioso da cidade que ainda desperta. Do alto da janela, vejo a lua minguante – um sorriso discreto, quase imperceptível.
Enquanto preparo o café, o aroma invade a cozinha. E ali, por um segundo, o mundo parece se ajustar ao meu ritmo. A visão frágil da planta ao lado, a xícara que transfere valor à minha mão — nada grandioso, mas tudo muito conectado atestando que existo.
Saio para a rua. Um vento leve empurra as folhas num balé singelo. Uma criança ri, e a risada ecoa como música. Uma moto freia com cuidado; alguém cede a vez com um aceno elegante. Instantes que duram menos de um piscar… e me lembram de que há bondade, cuidado, vida ao redor disso tudo.
No ônibus, o sol já se espalha pelos vidros, esquentando o ar. O rosto desconhecido à minha frente sorri ao ver um gatinho na rua. Pego esse segundo de ternura como se fosse um bilhete premiado; ali está a essência: podemos desacelerar para enxergar o ordinário como extraordinário.
Mais tarde, sob o céu laranja do fim de tarde, sinto o corpo cansado mas pleno. Lembro que Sêneca, um grande representante do Estoicismo, uma escola filosófica que enfatiza a virtude, a razão e a aceitação do destino, em suas obras, como as “Epístolas Morais a Lucílio”, enfatiza: “A vida, se tu souberes usá-la, não é curta, mas mal aproveitada” — e talvez a gente viva pouco porque não observa que cada instante carrega em si uma infinitude.
E nesses fragmentos — o aroma do café, o riso infantil, o aceno — embora tudo isso passe, estar consciente dessas infinitudes é, por si só, um sopro de vida.
Salvador-Ba, 29 de junho de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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