Naquele dia, Jerusalém fervilhava. Vindos de todas as partes do mundo conhecido, judeus da Diáspora se aglomeravam para celebrar a festa das colheitas. Mas ninguém podia imaginar que seria colhida ali, naquele cenáculo escondido, a primeira semente daquilo que viria a ser o cumprimento da promessa de Cristo: “Pedro, tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. (Mateus 16,18).
Os discípulos ainda estavam atordoados. A ascensão de Jesus havia acontecido há poucos dias, e com ela um misto de saudade e promessa pairava no ar. Ele dissera: “Ficai em Jerusalém até que do alto sejais revestidos de poder”. E eles ficaram. Unidos em oração, misturados na dúvida, mas com os olhos postos no Céu.
E então aconteceu.
Não foi uma brisa suave, nem uma metáfora. Foi um vento impetuoso, que invadiu o Cenáculo onde estavam e fez tremer as paredes da alma. Línguas de fogo pousaram sobre cada um deles, como se Deus, cansado de falar por intermédio dos profetas, decidisse agora habitar dentro de seus amigos. O Espírito Santo desceu não como um visitante, mas como um morador — e a Igreja Católica nasceu.
Nasceu não com solenidade, mas com espanto. Não num templo de mármore, mas num Cenáculo de madeira (local onde Jesus celebrou a Última Ceia). Não com estratégias, mas com fogo, fé e coragem.
Pedro, o mesmo que negara Cristo três vezes, agora se ergue com voz firme à frente de centenas de seguidores. Prega, explica, anuncia e proclama. E mais de três mil se juntam àquela pequena comunidade. Foi o primeiro “sim” coletivo da História Cristã. Uma multidão batizada, não com medo, mas com alegria e determinação.
Pentecostes é, para a Igreja Católica, o seu marco inaugural. Não apenas pelo evento em si, mas porque ele revela sua natureza: uma comunidade movida pelo Espírito, enviada a testemunhar a Boa Nova a todos os povos, em todas as línguas.
E o que começou com vento e fogo, atravessou séculos e impérios. Resistiu a perseguições, cismas e inquisições. Reergueu-se, renovou-se e continuou. Porque o mesmo Espírito sopra onde quer — e continua a soprar.
Hoje, quando nos lembramos daquele Pentecostes, é bom lembrar que a Igreja Catolica nasceu não como um monumento, mas como um movimento. Não como um museu da fé, mas como um campo de missão. E que, talvez, o maior milagre do Espírito Santo seja continuar a reacender corações e mentes adormecidos, com aquele mesmo fogo que incendiou os primeiros cristãos em Jerusalém.
Porque a Igreja de Cristo erguida sobre Pedro, nascida em Pentecostes, continua viva em cada sim que damos ao chamado de Deus.
Salvador, 08 de junho de 2025.
José Joaquim de Oliveira
Leave a comment