Um zero à esquerda

Há dias em que a gente acorda com aquela sensação de inutilidade — um peso no peito, um nó na garganta e a alma encolhida num canto qualquer. Dias em que o espelho não nos reconhece, em que a nossa presença parece não fazer diferença alguma no mundo, como se fôssemos apenas um zero à esquerda, um espaço vazio na conta da vida.

Não é tristeza, tampouco raiva. É só esse silêncio pesado que nos acompanha, como quem anda ao nosso lado, mãos nos bolsos, sem dizer palavra. Um vazio que nem dói, só pesa.

E o mais curioso é que, nesses dias, nada precisa ter dado errado. Às vezes, tudo está no lugar, tudo segue a rotina, mas a gente, por dentro, se sente deslocado, invisível, como quem entrou numa festa sem ter sido convidado.

Talvez seja o cansaço acumulado, a exaustão de tentar sempre ser forte, eficiente, produtivo. Talvez seja a cobrança silenciosa, aquela voz interna que insiste em dizer: “Você não fez o bastante, não é o bastante”. Ou, quem sabe, é só o ciclo natural da existência — altos e baixos, vazios e enchimentos, noites escuras antes de manhãs claras.

Nesses dias, as vitórias parecem pequenas demais e os fracassos, enormes. O mundo gira lá fora, mas aqui dentro, parece tudo parado, congelado, silencioso demais. A autoestima se recolhe, a esperança vacila e o ânimo, esse então, some sem avisar.

A gente pensa nas coisas que já fez, nas pessoas que já foi e se pergunta: para onde foi tudo isso? Para onde foram as certezas, os sonhos, as desejos, quando a gente se sente assim, vazio? Será que evaporaram, ou só adormeceram, à espera de um gesto simples, um olhar, um toque, para um novo despertar? Por onde andam os amigos, aqueles que leem a nossa alma apenas observando o nosso semblante?

Nesses dias a gente não quer fingir. Não quer se distrair, nem se convencer de que está tudo bem. Sobra apenas o espaço que não se preenche, esse eco que não encontra voz. Sim, isso é a síndrome do zero à esquerda. Mas, veja bem, até o zero, quando bem colocado, pode valer muito.

Mas é preciso lembrar — e isso é um exercício de fé — que esse sentimento não é permanente. Ele passa, como passam as tempestades, as estações, as dores. Mesmo quando a gente não vê, a vida está se movendo, silenciosamente, preparando outras paisagens, outras chances, outros encontros, novos amigos, justamente, porque há muita vida lá fora.

Nos dias em que a gente se sente um zero à esquerda, talvez a coisa mais sábia a fazer seja acolher esse vazio, sem forçar sorrisos, sem disfarçar o que se sente. Apenas respirar fundo, colocar os pés no chão e esperar. Porque o valor que se tem não se mede por um instante de tristeza, nem por uma sensação passageira de inutilidade. Se é muito mais do que o que se consegue perceber nos dias nublados.

E quando o sol voltar — e ele sempre volta —, a gente vai lembrar de que até os zeros quando bem colocados, fazem toda a diferenca.

Salvador-Ba, 28 de maio de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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