Longevidade, pra quê?

Quando me vejo no espelho e ele me devolve um rosto com mais histórias do que rugas, me pergunto: longevidade, pra que te quero? Não é só para soprar mais velinhas ou acumular datas no calendário. Quero longevidade para desfrutar o sabor das coisas simples, que antes passavam despercebidas na pressa dos anos jovens.

Quero longevidade para ver o pôr do sol com olhos pacientes, para ouvir uma boa música sem pensar no tempo que falta, mas no tempo que sobra. Para ler livros que antes abandonei pela metade, para cultivar amizades e memórias, como quem cuida de um jardim que floresce lentamente.

Quero longevidade para testemunhar as mudanças do mundo, mesmo que nem todas me agradem, mas com a sabedoria de quem aprendeu que tudo passa, até a juventude — e que isso não é motivo de tristeza, mas de admiração.

Longevidade, pra que te quero? Para ter tempo de abraçar mais, perdoar mais, contemplar mais. Para ser menos severo comigo e, principalmente, com os outros: para envelhecer com dignidade, sabedoria e leveza. Para olhar para trás com orgulho e para frente com serenidade.

Porque, no fim, longevidade não é apenas durar mais, mas viver melhor. E se for para ter mais anos, que sejam anos bons, plenos, com saúde na alma, se não for possível no corpo.

Dizem que a vida é curta, mas quem já atravessou algumas décadas sabe que ela pode ser, sim, bem longa. E, se for, que seja uma travessia leve, lúcida, feliz. Não basta colecionar anos, é preciso preenchê-los de sentido.

Longevidade, pra que te quero? Pra ter tempo de ver os netos crescendo correndo, e quem sabe até os bisnetos aprontando. Pra perceber que os erros2 do passado foram, na verdade, boas lições bem disfarçadas. Pra rir mais devagar e chorar com mais sabedoria.

Não se trata de adiar o fim, mas de valorizar cada pedaço do caminho. Trocar a pressa pelo encantamento. Aceitar as rugas e os cabelos brancos como marcas de quem viveu intensamente e ainda tem sede de mais viver.

Longevidade é o prêmio de quem aprendeu que viver bem é melhor do que simplesmente viver muito. É o tempo que se ganha quando se escolhe amar mais, perdoar mais com mais facilidade e se preocupar menos com o que não importa.

Então, longevidade, pra que te quero?
Pra viver bem — e, quem sabe, até melhor do que antes.

Salvador-Ba, 23 de maio de 2025

José Joaquim de Oliveira

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