Vez ou outra, me pego pensando nessas duas palavrinhas que me geram um peso enorme: “ser” e “estar”. Tão pequenas, mas que fazem toda a diferença quando olhamos para a vida — seja a nossa, seja a da natureza ao nosso redor.
O cajueiro no quintal, por exemplo: será que ele é uma árvore, com destino traçado desde a semente? Ou está cajueiro, naquele ponto do tempo, enraizado ali por enquanto, até que o vento, o tempo, o machado, ou o fogo o transforme em outra coisa? Talvez hoje esteja frondoso, amanhã caído. E nós? O que somos? Somos gente? Ou estamos?
Quando crianças, estamos sonhadores, leves, rápidos. Na juventude, impetuosos e invencíveis. E na velhice? Estamos mais lentos, contudo, mais sábios. Mas, será que em algum momento somos, de fato? Ou tudo é um estar inconstante, numa incessante travessia?
Dizem que o rio não é o mesmo a cada mergulho. E nós também não. Muda o corpo, mudam as ideias, mudam até os amores. O “ser” parece uma promessa que nunca se cumpre, completamente. Já o “estar” é um retrato tirado agora, neste instante — e só. É efêmero, sim. Contudo, no meu modo de ver, mais honesto.
A natureza talvez saiba disso melhor que a gente. O Sol está brilhando enquanto é dia, mas também é estrela, eternidade. A flor está aberta, linda, perfumada, mas é efêmera. O mar está calmo, sereno, mas é puro mistério. E nós? O que somos? Somos eternos buscadores — ou apenas estamos em busca? Essa é uma questao profunda — e ao mesmo tempo, poética.
Dizer que somos eternos buscadores sugere que a busca está na essência do nosso viver. Procurar, desejar, explorar, tudo é parte essencial da condição humana. Nesse sentido, a busca não é apenas algo que fazemos; é muito mais, é algo que somos. É como se a inquietação fosse permanente, e o sentido da vida estivesse justamente nesse movimento contínuo.
Por outro lado, estar em busca implica algo mais transitório: estamos buscando agora, por algo específico e, talvez um dia, possamos encontrar o que buscamos e parar. Isso dá à busca um caráter mais circunstancial, ligado ao momento existencial.
Talvez a verdade esteja na tensão entre esses dois polos: somos feitos para buscar — sentido, amor, conhecimento, beleza, lealdade, felicidade — mas também precisamos aprender a reconhecer quando a busca pode dar lugar ao encontro, à pausa, à contemplação ao fim da linha.
Quem sabe, a resposta nem importe tanto. O segredo esteja mesmo em aceitar: às vezes somos, outras vezes, apenas estamos. E, no fim das contas, viver é isso — saber transitar entre um e outro, sem pressa de chegar. Porque mesmo quando somos, logo mais percebemos que já estaremos em outra.
E assim seguimos, entre o ser e o estar, sozinhos a apostar na roleta da sorte, mutável, volúvel e transitória.
Salvador-Ba, 16 de maio de 2025
José Joaquim de Oliveira
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