Sim. Existe um Outro coexistindo em mim. Esse Outro não é espelho, é sombra e claridade. Sempre me cobra quando vacilo, me confronta quando fujo, me abraça quando fraquejo. O Eu, vaidoso e teimoso, prefere a zona de conforto. O Outro impetuoso cutuca, desafia, pergunta “e se?”. E se você não estiver certo? E se o caminho mais fácil for o menos interessante?
Foi o Outro que me fez ceder quando meu orgulho queria vencer uma discussão. Foi ele quem me fez voltar atrás e pedir desculpas, mesmo sem “culpa”. O Outro me lembra que a vida não é uma disputa de egos, mas um campo de encontros — e ninguém se encontra se se vive trancado em si.
Na convivência com os outros de fora, é o Outro de dentro que me ensina compaixão. Quando vejo no outro o mesmo conflito, a mesma contradição, percebo que sou feito do mesmo barro e ungido pelo mesmo mistério. O Eu julga, o Outro compreende. O Eu quer razão, o Outro busca sentido.
Viver, no fundo, é aprender a dialogar com esse Outro que habita em nós. Quando o escutamos, nos tornamos melhores para os outros que cruzam o nosso caminho. E quem sabe, um dia, ao olharmos para alguém, possamos enxergar — com mais doçura — o outro de nós mesmos.
Sempre me intrigou essa convivência nem sempre hsrmoniosa entre o “Eu” e o “Outro” que habita em cada um de nós. Acordamos juntos, dividimos pensamentos, brigamos por decisões e, quase sempre, discordamos nas horas mais impróprias. Às vezes penso que sou dois – ou mais – e que a unanimidade interna é uma utopia reservada aos santos ou aos ingênuos.
O “Eu” quer conforto, previsibilidade, café na temperatura certa e rotina. Já o “outro” clama por riscos, mudanças e cafés fortes que queimem a língua. O “Eu” sonha em permanecer, o “Outro” vive pronto para partir. Um quer sossego, o outro, tempestade. E é nesse embate cotidiano que sigo tentando existir sem me desintegrar.
Na fila do check-out, o “Eu” é educado e paciente; o “Outro” rosna baixinho, impaciente com a lentidão do mundo. Diante de uma injustiça, o “Eu” pondera as consequências; o “Outro” quer confrontar, rasgar protocolos, virar a mesa. Quando faço uma gentileza, o “Eu” se orgulha; o “Outro” desconfia: “vão pensar que você quer exercitar um toma lá dá cá”.
Vivemos numa casa com paredes finas, onde qualquer pensamento vaza. É difícil esconder do outro aquilo que nem eu sei o que sinto. Às vezes o “Outro” assume o volante, e o Eu vira passageiro da própria vida, observando decisões que não reconheçe como suas. Em outras, é o “Eu” quem segura firme o leme, tentando evitar naufrágios em mares que o “Outro” insiste em navegar.
Mas talvez essa convivência seja a essência da humanidade. Talvez sejamos todos um pequeno parlamento interno, onde cada voz tem seu voto, onde não há uma verdade única, mas sim um acordo sempre provisório que permite seguir em frente.
No fim, o “Eu” e o “Outro” aprendem, dia após dia, a coexistir. Não em harmonia plena, mas num pacto silencioso de sobrevivência. E é nesse atrito que me lapido – imperfeito, contraditório e humano.
Salvador-Ba, 07 de maio de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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