Há dias em que a alma acorda com fome. Não é de pão, nem de café forte. É uma fome que mora fundo, entre um suspiro e outro. A alma faminta de sentidos não se satisfaz com rotina, nem com o silêncio raso das conversas banais. Ela quer o tempero da vida — aquele que a gente só sente quando presta atenção.
A alma faminta quer ver mais do que enxergar. Quer reparar no brilho acidental da manhã que se espreguiça pela fresta da janela, no gesto distraído de uma criança que brinca com uma pipa num canto da praça. A alma faminta quer cor, movimento, textura — quer que o mundo lhe conte histórias com o toque, com o som, com o cheiro de frutas maduras tiradas do pé.
É nesses dias que ela arrasta o corpo para fora de casa, impaciente com o mesmice dos outros. Ouve risos ao longe como quem escuta música. Observa os casais que se cruzam, cada um com seus mistérios e abismos silenciosos. Ela se alimenta disso: da beleza escondida no ordinário, da ternura inesperada, do espanto pulsante da vida.
Mas há também uma fome mais profunda, aquela que não se mata com beleza, nem com poesia. É a fome de toque, de abraço, de presença. É quando a alma grita por uma voz que a reconheça, por um olhar que a enxergue além da superfície. E se ninguém a ouve, ela se recolhe mais faminta ainda.
Porque a alma tem seus dias de festa, mas também de jejuns. E entre um e outro, ela sobrevive do pouco, de uma música que emociona, um perfume que traz lembranças, uma palavra dita na hora certa. E isso basta, por vezes, para que ela siga em frente.
Vivemos tempos em que o brilho dos holofotes parece mais importante do que a luz da razão. A sociedade — esta criatura coletiva de vontades difusas — parece cada vez mais seduzida pelo espetáculo, pela imagem, pelo instante que cintila e some, do que pelo mergulho denso e profundo nas questões que verdadeiramente moldam nosso destino.
Um show de uma estranha lota estádios e merece sacrifícios inimagináveis. . Um debate sobre a violência, com sorte, preencheria apenas algumas cadeiras. O que esperar de uma sociedade que escolhe aplausos no lugar de debater soluções para questoes essenciais, que prefere a catarse do entretenimento à inquietação do pensar?
Talvez estejamos diante de almas famintas de sentidos. Buscamos prazer imediato como anestesia para dores mais profundas — aquelas que a desigualdade, a insegurança, a indiferença social nos impõem diariamente.
Não se trata de condenar a arte, nem o riso, nem o espetáculo. O show é celebração da vida — o problema é quando ele se torna fuga, alienação sistemática. Quando a trilha sonora do dia a dia serve apenas para calar o grito das ausências.
A violência, esse monstro que se alimenta da pobreza, não se resolve com curtidas nem com manchetes sensacionalistas. Requer diálogo, escuta, políticas públicas, coragem e enfrentamento. Requer que saiamos do palco e encaremos os bastidores da nossa sociedade. Porque é ali, longe dos refletores, que se trava a verdadeira luta por dignidade e significados
Salvador-Ba, 05 de maio de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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