O mar de Tiberíades, também conhecido como mar da Galileia ou lago de Genesaré, é um extenso lago de água doce localizado na região norte de Israel.
O sol nascia tímido sobre as águas tranquilas daquele mar. As ondas leves quebravam na margem com um sussurro antigo, como se contassem histórias guardadas por séculos. Ali, onde as pedras são testemunhas silenciosas, há um tipo de silêncio que fala — e muito.
Foi ali, dizem os Evangelhos, que os discípulos voltaram a pescar depois da Páscoa e da Ressurreição. Pescadores de homens, de novo com redes nas mãos, talvez tentando compreender o novo mundo que surgia depois do túmulo vazio. Pedro, João, Tomé… homens comuns, feridos pela dúvida e pela desesperança.
Imagino Pedro pulando na água ao reconhecer a figura na praia. Não esperou que o barco chegasse. Era ele. Só podia ser ele. Um homem à beira da brasa, preparando peixe e pão — o mais simples dos gestos, o mais profundo dos sinais. Comer juntos, partilhar a pão. Ali não havia discurso, apenas presença.
À beira do mar de Tiberíades, compreende-se que a vida não se resume aos grandes feitos, mas aos reencontros silenciosos. As redes que, mesmo depois do fracasso de uma noite sem peixes, voltam a se encher. As brasas acesas por mãos invisíveis. Ao chamado repetido a Pedro: “Tu me amas?”
Às vezes, é preciso voltar à beira do nosso próprio mar. Retornar ao lugar onde tudo começou. Onde as redes estavam vazias, mas o coração ainda esperava. À beira do mar de Tiberíades, os olhos aprendem a ver de novo. E o amor, mesmo ferido, aprende a recomeçar.
Há lugares que guardam mais que paisagens — guardam silêncios antigos, ecos de passos sagrados, suspiros de esperança. O mar de Tiberíades é um desses lugares. Ele não ruge como os oceanos, mas fala como quem sussurra mistérios milenares aos atentos.
À beira de suas águas Jesus caminhou por ali, não com ouro e nem espadas, mas com olhos que enxergavam o fundo da alma. Foi à margem desse lago que Ele chamou homens comuns para a extraordinária aventura do apostolado. “Segue-me” — e o mundo nunca mais foi o mesmo.
Imagino um pescador sentado em uma pedra, os pés quase tocando a água. A brisa morna balança o cabelo, e os olhos se perdem na linha do horizonte. Há uma paz que não se explica, só se sente. Tudo ali parece impregnado de significados: cada onda, cada concha, cada barquinho de pescador que ainda hoje atravessa as manhãs.
À beira daquele mar, os reencontros também acontecem. Foi ali que Jesus, após a ressurreição, apareceu aos discípulos. Nenhum discurso. Apenas um fogo aceso, um peixe assando, e um convite: “Vinde, comei”. Às vezes, o sagrado se manifesta no gesto mais simples e humano.
A vida, penso, se parece com esse lago. Às vezes agitada, às vezes serena. Mas é sempre à margem que as decisões se tomam. À margem se ouve o chamado. À margem onde se partilha o pão.
Talvez todos nós, em algum momento, devêssemos sentar à beira do nosso mar de Tiberíades, onde quer que ele esteja. E ali, no silêncio das águas e da alma, lembrar que há sempre um convite à vida verdadeira — feito com amor, simplicidade e eternidade.
Salvador-Ba, 03 de maio de 2025.
José Joaquim de Oliveira
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