Olhares atentos

Vivemos tempos em que a figura do herói é exaltada — o salvador que chega na hora certa, com soluções mágicas e feitos espetaculares. Mas talvez estejamos olhando para o lado errado. Talvez o que mais precisamos não é de heróis solitários, mas de mãos estendidas e olhares atentos.

Na correria dos dias, esquecemos o poder de um gesto simples. Um olhar que acolhe, que percebe o outro. Uma mão que se oferece, não para apontar, mas para segurar, apoiar, dividir o peso. São atos pequenos, silenciosos, mas transformadores.

A solidariedade é uma forma de coragem. Não aquela que estampa capas de jornais, mas a que se revela no anonimato da empatia de quando se percebe que o vizinho está em silêncio há dias. Quando alguém se dispõe a ouvir, mesmo sem ter respostas. Quando dividimos um pão, uma palavra, uma presença.

Se todos olharmos ao redor com mais atenção, se todos estendermos a mão com mais frequência, talvez descubramos que não precisamos esperar por heróis. Podemos, juntos, construir uma rede invisível de apoio que sustenta, fortalece e transforma.

Porque no fim das contas, o verdadeiro milagre não está nos grandes feitos, mas na capacidade de sermos humanos — plenamente humanos — uns com os outros.

Na correria dos dias, entre compromissos e distrações, há algo que insiste em resistir ao esquecimento: os olhares atentos da solidariedade. Eles não precisam de palavras, nem de grandes gestos para se entender a dor do outro. Bastam o silêncio e a escuta verdadeira, no simples ato de perceber além.

Solidariedade, ao contrário do que muitos pensam, não nasce apenas nos momentos de tragédia. Ela floresce no cotidiano, quando alguém segura a porta para quem vem atrás, quando se oferece um copo d’água, quando se escuta um desabafo com o coração aberto. São olhares que enxergam além da superfície — que veem o cansaço no andar arrastado, a angústia escondida num sorriso forçado, a necessidade disfarçada em orgulho.

É o caso de uma senhora no ônibus oferecendo seu assento a um homem bem mais novo, mas visivelmente abatido. O gesto causaria surpresa, mas o olhar dela dizia tudo: “eu vi você e senti o seu sofrimento.” É disso que se trata a solidariedade. Não é dar o que sobra — é partilhar o que se tem, inclusive atenção.

Vivemos cercados de gente, mas muitas vezes esquecemos de olhar. Olhar de verdade. Quem desenvolve essa sensibilidade encontra no mundo pequenas epifanias — um aceno cristão de gratidão, um sorriso aliviado, uma conexão que, por breves instantes, quebra o gelo da indiferença.

Talvez o mundo não precise de heróis, mas de mais olhos atentos. Porque a solidariedade transforma. E transforma para sempre.

Salvador-Ba, 30 de abril de 2025.

José Joaquim de Oliveira

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