O que ainda vai nos iluminar?

Dizem que, em breve, o mundo será feito de fábricas sem janelas e sem luzes acesas. Ninguém dentro, ninguém fora. Apenas máquinas — silenciosas, incansáveis — trabalhando para outras máquinas. É o que chamam de “fábricas escuras”: instalações tão automatizadas que nem a luz humana é mais necessária.

No começo, parecia ficção científica. Um futuro longínquo, coisas para serem vistas pelos nossos netos. Mas a realidade não teve paciência. Chegou antes. Robôs que constroem robôs. Inteligência artificial que comanda linhas de produção com precisão implacável. Humanos? Sim, mas com um olhar distante, talvez nas câmeras de segurança e um dedo ocasional nos painéis de controle.

E, como era de se esperar, veio a polêmica.

Uns dizem que é o ápice da evolução industrial: menos acidentes, mais eficiência, nenhuma reclamação trabalhista, produção em ritmo de competição olímpica. Outros olham com desconfiança: onde ficam os empregos, a dignidade do trabalho bem feito, o suor que moldou a história dos operários e das fábricas?

Há quem aplauda de pé. “Agora, os humanos poderão se dedicar a tarefas mais nobres!”, afirmam os entusiastas. “Vamos nos libertar da rotina exaustiva, buscar o conhecimento, a arte, a inovação.” Mas há também quem murmure nas esquinas: “E quem ensinará às máquinas o valor do erro? Quem lembrará a elas que produzir não é apenas montar peças, mas também construir sonhos?”

A velha fábrica da esquina, que já foi viva de sons e passos, hoje repousa no escuro. Os mesmos muros, as mesmas paredes. Por dentro, um coração de metal batendo em silêncio. Às vezes, à noite, quem passa na rua quase ouve — ou imagina — uma antiga canção de operários, um eco que insiste em não morrer.

Talvez a maior polêmica não seja sobre tecnologia, empregos ou produtividade. Talvez a verdadeira pergunta seja: em um mundo de fábricas escuras, o que ainda vai nos motivar?

Tempos estranhos. As fábricas, outrora gigantes orgulhosas de ferro e vidro, agora jazem escuras, quietas como antigos templos esquecidos. As chaminés, que antes desenhavam fumaças no céu como quem assina contratos com o futuro, ficaram silentes. No chão de concreto, o eco dos passos operários era o último vestígio de uma era que parecia ter se exaurido.

Muita gente dizia que tudo havia terminado. Que sem o tilintar das engrenagens e o fulgor das soldas, o mundo havia se apagado. Mas a luz verdadeira — essa que não depende de eletricidade nem de motores — continuava acesa nos corações e mentes do homem de bem.

Iluminavam-nos ainda os olhos das crianças que brincavam entre as ruínas, inventando universos inteiros com pedaços de ferro de fábricas velhas. Iluminavam-nos as conversas ao redor das mesas simples, onde o pão era dividido e o futuro, reimaginado com palavras de esperança. Iluminavam-nos as ideias daqueles que se recusavam a aceitar que progresso significasse apenas fumaça e lucro.

Em um mundo de fábricas escuras, o que ainda nos ilumina é aquilo que as máquinas nunca fabricaram: a capacidade de sonhar, de criar com as mãos e o coração, de reconstruir não apenas peças, mas significados. Somos iluminados pela teimosia silenciosa de quem acredita que cada fim esconde, em sua dobra secreta, um eterno recomeço.

Talvez, no fundo, tenha sido preciso apagar as grandes luzes, deixar tudo escuro para que percebêssemos o brilho dos sonhos que sempre foi nosso — e que nenhuma fábrica escura conseguirá apagar.

Salvador-Ba, 27 de abril de 2025.

José Joaquim de Oliveira

Leave a comment